segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Grande esforço em ordem à presença da UCM em Lichinga

1. Encontro entre a Delegação da UCM e a delegação da Diocese

A Universidade Católica de Moçambique (UCM) está a fazer um grande esforço para se tornar presente em Lichinga. Para sermos mais justos, deveremos dizer que este sempre foi um desejo do bispo de Lichinga, D. Élio Greselin.
Assim, no dia 16 de Dezembro de 2011 realizou-se uma reunião histórica em ordem à implantação da UCM aqui em Lichinga, na continuidade de outras anteriores.

A delegação da universidade era composta pelo vice-reitor Vilanculos, também director da faculdade de educação e comunicação de Nampula, pelo responsável da zona norte 3 (inclui Niassa, Nampula e Cabo Delgado) e director da Faculdade de Direito de Nampula (P. Fernão), pelo Dr. Alfândega, da Faculdade de Economia e Gestão da Beira. De Cuamba estavam presentes: o Eng. Nduna, o Dr. Filipe, o jurista Ruben Henrique e o decano da faculdade de agricultura de Cuamba (288 alunos), (Eng. José).
A delegação da Diocese era encabeçada pelo bispo da Diocese (D. Élio Greselin), pelo vigário geral, pároco da catedral e membro da comissão instaladora (P. Joaquim), pela directora do Centro Polivalente (Ir. Vitória), pela administradora da diocese e membro da comissão instaladora (Ir. Delvina), pelo Director Geral do ESAM e membro da Comissão Instaladora (Dr. Francis), e por mim (Adérito Gomes Barbosa), como convidado em ordem a apoios futuros de Portugal, sobretudo ao nível da biblioteca.

Durante toda a manhã, foram analisados pontos em ordem à abertura da UCM, já em Fevereiro ou Março de 2012 aqui em Lichinga quer ao nível de instalações, quer ao nível de organização dos diversos cursos, tendo como estimativa a inscrição de 150 alunos.
Os cursos que hão-de funcionar serão uma extensão da Faculdade de Agricultura de Cuamba.
Assim, ficou determinado que a UCM em Lichinga arrancasse com três cursos:
- Administração Pública
- Direito
- Contabilidade, gestão e comércio.


2. Frases soltas da reunião
- Não podemos apertar o pescoço à faculdade, mas devemos ver o que se pode fazer.
- Tudo começou como acordo entre irmãos.
- Reembolso? Empréstimo? Renda? É tudo a mesma coisa?
- É mais um pensamento a menos.
- Milímetro por milímetro. Colocamos gotas de dinheiro.
- A presença da UCM pode oferecer mais clientela para o comércio em Lichinga.
- Alugar entre irmãos.
- Quem fica mal na fotografia?
- Não quero perder a universidade por causa do dinheiro (bispo).
- O zero nunca foi mínimo (Francis)
- É preciso idoneidade e competência (Fernão).
- A universidade sempre foi o sonho do bispo.
- Quando o filho nasce, a mãe deve pensar nele no primeiro mês (bispo).
- Quando o filho está a crescer, não pode ser abandonado na estrada (bispo).
- A diocese é uma mãe com muitos filhos. Deve alimentar todos. Não se pode deixar morrer nenhum (vigário geral).
- É a primeira vez que nasce esta criança.
- Não começar cursos com pessoas cochas.



3. Fim
E assim terminou a reunião, sem intervalo, desde as 8.30h da manhã até às 13.30h nesta cidade de Lichinga, cujo nome indica curral, por estar rodeado de montanhas, cidade encurralada que tenta abrir-se cada vez mais à cultura.



Adérito Gomes Barbosa, scj
Lichinga, 16 de Dezembro de 2011

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Odisseia Nampula Lichinga

Para começar, há que dizer que não é possível fazer este percurso directo, sem ser por avião ou carro particular. Nesse caso, sem orçamento para o avião, planeei fazer a viagem, de comboio, Nampula até Cuamba e de chapa Cuamba até Lichinga.

No sábado, dia 10 de Dezembro de 2011 (por sinal, dia dos Direitos Humanos), dirigimo-nos pelas 15 horas para a estação de comboio de Nampula, a fim de comprar os bilhetes de segunda classe para a viagem de domingo.

Na fila, encontrava-se também o P. Augusto, padre diocesano da Cerâmica em Lichinga, mas a trabalhar no seminário diocesano de Nampula. Reconheceu-me, veio oferecer-se para comprar o nosso bilhete, uma vez que estava muito perto da bilheteira. Lá lhe demos o dinheiro para comprar o bilhete para mim, para a missionária Gabriela e para a brasileira Ir Fátima.

Aproximou-se para comprar o bilhete de segunda, mas veio logo ter connosco dizer que só havia de terceira. Isto quer dizer ir no meio de pessoas e animais. Pois, sendo para viajar, arriscámos…

No dia 11 de Dezembro chegámos à estação de comboio de táxi as 4h da manhã.

Na estação para entrar para dentro havia uma fila para homens e outra para mulheres, isto só para passar a barreira e picar o bilhete.

Ao entrar na última carruagem da terceira parecia um filme do Texas.

Os bancos estavam todos ocupados, o corredor igualmente. Como podia eu passar além da porta de entrada? Chega o polícia e diz que não posso ficar à entrada da porta. Eu disse-lhe que o corredor estava atulhado de gente e eu não conseguia andar mais.

Então o polícia disse-me para sair do comboio e corresse para o Botequim (bar) que tem mesas e bancos. Lá sprintei, mas o bar estava repleto de gente, com pessoas em pé à espera de gente para se sentar. Afinal o P. Augusto estava lá sentado numa cadeira. Mal me viu levantou-se para me oferecer a sua cadeira.

Continuei de pé. Eram 5 horas da manhã e o comboio começava a rolar. Tive que aguentar de pé até às 8 e 30 da manhã. A esta hora o dono do bar, um mestiço simpático disse para me sentar num lugar livre. Aproveitei logo. Daí a pouco aparece um rapaz que me diz que o lugar é dele. Ok. Levantei-me e disse para ele apertar um pouco para eu me sentar. Ia mais no ar do que sentado, mas era melhor pouco do que nada.

Assim passamos Rapale, Caramanja, Namina, até chegarmos a Ribaué. Aqui desceu o tal rapaz com a mulher, com cara de japonesa, mas é capaz de ser moçambicana.


Aí tornei-me dono, senhor e rei do meu lugar. Ao meu lado, ia uma mulher muçulmana, Latifa que viajava com o seu filho Fraquito (nome da criança), ao meu lado. Começou logo a dizer que estava muito stressada, porque discutira com o marido. Este veio trazê-la à estação de comboio, mas sem falar com ela. Perguntei como poderia destressar. Disse-me para eu lhe emprestar dinheiro para uma cerveja que me devolveria (esta palavra não existe) em Cuamba. Lá lhe ofereci um copo de cerveja de 30 meticais. Daí a pouco diz que tem dores de cabeça. E só passaria bebendo outra cerveja. Calma, lá. Ajudar sim, ser lorpa não. Por acaso não percebi que sendo ela muçulmana bebia álcool cerveja. Mas tudo bem.

Depois de passarmos por Malema, chegamos a Mutuali. Pedi-lhe para me ir comprar um saco de mangas que custariam dez meticais e passei-lhe o dinheiro para a mão. Ela passa-me o filho pequeno dela para os meus braços e pôs-se a andar para comprar fruta. O P. Augusto que estava lá mais à frente olha para mim e vê-me com o filho da muçulmana nos braços. Que fazer? Disse eu. Olhou para mim, sem falar.

Ai Latifa, Latifa. A viver em Mecuti (Pemba), com o quase marido (já têm dois filhos) em Nampula…
Bem. Daí a pouco aparece a mulher com vários sacos de mangas, mas com uma teoria africana. Encontrei o revisor que me pagou estes sacos de mangas. Eu disse: calma lá. Não me vais fintar. Eu dei-te 10 meticais e um saco é meu. Certo? Lá se deixou derrotar pela sua teoria: Ah! Está bem! Pois está, disse eu. E já a 20 minutos da chegada a Cuamba, agarrei o saco das mangas, a minha mochila e vim para junto da porta de saída. Não fosse outra teoria de qualquer outra tribo convencer-me que as mangas não eram minhas e os meus dez meticais que dei para as mangas desapareceram. Mal imaginava eu que este saco de mangas parava em Cuamba uma noite e continuaria até aqui Lichinga e foram bem saboreadas pelo bispo.

Mas a Latifa tentou mais um drible. Quem te vem buscar à estação? Uma pessoa amiga. E não me pode levar também com estes sacos todos? Eu aí usei um raciocínio típico africano, a que chamam finta: sabes. Não é bem uma amiga que me vem buscar. É uma amiga de uma amiga e portanto não tenho muita confiança. Se fosse a minha amiga que é amiga da que me vem buscar, dava. Assim não dá. Percebeste? Ficou baralhada.

E chegamos à estação às 16 horas. E como a Gabriela trazia o merendeiro e ficou na carruagem de trás. Fiquei sem pequeno almoço e sem almoço… em jejum às 16h. Porra.

Ainda bem que a Rai que é amiga da Marli que estava em Nampula estava mesmo à nossa espera com ar de acolhedora. Fomos até casa destas missionárias brasileiras. Tomei um duche rápido. É que estava cheio de fome. Sentei-me à mesa e foi comer tudo ao mesmo tempo: pequeno-almoço, almoço, jantar às 17 horas. Fui para o quarto dormir, porque às 4,30h da manhã tinha que me levantar.

Dessa maneira fui para o quarto, pedi à Rai para ligar a ventoinha. Afinal não era carregar no botão que a ventoinha andava. Era dar duas voltas em cima com a ajuda das mãos e depois ela pegava sozinha… assim foi…com a ajuda da outra missionária que se chama Flor de Maria.

Às cinco da manhã, arrancámos para o lugar dos chapas, carrinha de nove lugares que trazia pelo menos o dobro. Vá lá. Ofereceram-nos os dois lugares ao lado do motorista. Assim, pudemos colocar à frente o saco das mangas. Antes de começar a viagem, em frente da estação, estava uma estalagem muçulmana. Pedi para ir à casa de banho. Disse-me uma criança: cinco meticais. Fui à casa de banho. Quando saí, dei os cinco meticais, mas disse-me que eram dez. Eu não estava a gostar desta finta, mas para não chatear, lá paguei.

Começamos a viagem. Que estrada! Que lama! Que buracos! Lá fizemos das 5.30h até às 9.30h uma grande parte da viagem até Mandinga (praticamente a fronteira com o Malawi e dez quilómetros de Mitande, onde estiveram as voluntárias Gabriela, Joana Coelho e Milu a fazer voluntariado.

Em Mandimba, a chuva molhava mesmo. O motorista Jorge do minibus disse para sairmos e irmos para debaixo de uma varanda de uma casa que depois nos chamaria. Aproveitamos esse bocadinho de tempo para acabarmos os restos do que serviu para pequeno-almoço, almoço e jantar no dia anterior.
(Estou a escrever-vos em Lichinga. Aqui vem o comboio uma vez por mês e neste momento estou a ouvir o comboio a passar!!!).

Daí a pouco retomamos a nossa viagem, já com alguns malawianos que tinham vindo do Malawi, mesmo ali ao lado como disse.

Vinha um outro minibus à nossa frente e tinha tido problemas no depósito da gasolina. Então o nosso Jorge disse que o nosso carro era bom e não avariaria como o outro. Porque é que ele foi dizer isso? Depois de andarmos um bocado e apanharmos a estrada alcatroada, o carro começou a andar devagar. Daí a pouco, ele disse que tínhamos que parar porque havia um pequeno problema: o tubo da água do radiador estava furado. Era preciso arranjar. Disse ele que era rápido. Esperamos uma hora, mas o engenheiro do momento conseguiu colocar aquilo a andar.

E lá fomos andando até chegarmos a Massangulo. Aí a polícia manda parar e implicou com os do Malawi, mas como estavam documentados seguimos viagem. Pelas 15 horas, entrámos em Lichinga com chuva e frio.

Na última parte da viagem, o motorista começou a conversar e a dizer que Lichinga era um curral de bois antigamente e depois espalhou-se esse nome. A seguir começou a falar do lago Niassa. Dizia que o crocodilo podia apanhar negro, mas quando via um branco como eu, fugia. Terei mesmo a cor da lixívia? Neste caso, tem vantagem.

Mas em vez de nos deixar no mercado central, onde terminou a viagem, teve a gentileza de nos trazer até aqui à casa do bispo católico.

E quem estava para nos receber? Nem mais nem menos que o bispo que estava a sair com o vigário geral para uma visita pastoral.

À tarde falhou a luz. Celebramos a missa à luz das velas e da lanterna a manivela que estava no meu bolso…eu, o Ir. José Meone, a Gabriela, um voluntário italiano Mário.
Adérito Gomes Barbosa

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Cuamba a Nampula… de comboio

Toda a gente diz que andar de comboio de Nampula a Cuamba que é um espectáculo. A mim parece-me que andar de comboio de Cuamba a Nampula é que é um espectáculo.

Para começar, vais comprar o bilhete na véspera, mas as bilheteiras estão abertas só na hora em que chega ou parte o comboio. Depois, tens carruagem de segunda e terceira. Não há carruagem de primeira. Na terceira viaja tudo: pessoas, galinhas, cabritos… tudo tem lugar.

Já a segunda custa 400 meticais. Já é muito dinheiro para cá. São carruagens com compartimentos de 6 lugares. Ficam três pessoas frente a outras três, a não ser que alguém vá lá para cima, onde estão as malas e vá a dormir o tempo todo como aconteceu. Afinal são 12 horas de comboio. Sai às 5.30h da manhã de Cuamba e chega às 17.30h da tarde. Segundo algumas versões, não muito credíveis, há motoristas que aceleram o comboio como o chamado russo e chega mais cedo a Nampula. Segundo outros, há maquinistas que param, vão almoçar com a namorada e só depois retomam a marcha.

Assim, em vez de chegarem às 17.30h chegam às 23h. Apesar de eu não ter visto muitas lupas por aí, há gente que acrescenta um conto ao ponto.

Não é que o comboio partiu a tempo e horas? A primeira grande paragem foi em Mutuali. Aí dezenas de pessoas aproximam-se com cestas de mangas à cabeça e nós da janela, vemos, apreciamos, escolhemos as que não estão verdes ou estragadas.


 
Como eu não percebia nada disto aqui, pedi a uma mulher para me escolher dois sacos grandes de mangas que custavam 20 meticais para eu trazer para a comunidade, onde me encontro com o P. Elias e o P. Ricardo, já que o P. Augusto foi para Maputo acabar a sua tese de filosofia.


Eu pensava que lhe estava a dar uma nota de 20 meticais. Afinal dei-lhe uma de 50 meticais. Então disse para mais à frente comprar bananas para eu trazer. Comprou-me em Malema umas bananas deslavadas e murchas…eu perguntei…afinal estas bananas custam trinta meticais? Não. Sobrou dez meticais. Eu disse para comprar algo para os filhos que iam com ela.

Mas cada vez que o maquinista via alguém com uma gamela de mangas, tomates, cebola ou alho à cabeça, parava o comboio. Fez-me lembrar o autocarro que parava em todo o sítio para carregar e levar passageiros quando eu era pequeno. Nessa altura levava mais de uma hora para fazer 15 kms. Agora estamos a falar de Cuamba a Nampula que são 400 kms.

E assim o comboio ia andando ao sabor do maquinista e do mercado que estava junto à linha. A paisagem é verde, bonita, mas não exageremos…É todo o movimento das pessoas…
Ia uma mulher bastante forte com uma criança que dizia ser sua filha. Para mim deve ser a avó, mas armou-se em esperta a dizer que era a mãe da criança de 5 anos. Estava sempre a dar comida à criança…
E chegou a hora do almoço – há uma carruagem restaurante – todos pediram shima, batata frita e caril. Eu puxei do meu saquinho e comi a sande de ovo que me deram em Cuamba e bebi da água que eu trouxe numa pequena garrafa.

Ficaram todos a olhar para mim como que a dizer: branco sofre…
Quando já estávamos a chegar, esta mulher pede-me o meu telemóvel e começou a mexer. Eu perguntei o que queria ela do meu telemóvel. Respondeu-me que queria ver um número. Lá mexeu no dela. Lá mexeu no meu. E eu parvo a olhar para esta esperta como um rato.

Fiquei desconfiado. Quando cheguei a Nampula, perguntei, porque é que a mulher queria mexer no meu telemóvel. Responderam que no Mcell pode transferir-se dinheiro de um para outro até 100 meticais. Nunca percebi se ela me tirou dinheiro ou não…

Chegados a Nampula, era preciso ter cuidado com as malas e as mangas, porque ladrão é mato e sabe roubar, é profissional. Assustaram-me de tal maneira que quando eu saia do comboio não queria ninguém por perto.

E cheguei a casa com os meus pertences e os dois sacos de mangas…
Adérito Gomes Barbosa

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Cuamba, 21 a 27 de Novembro de 2011

Cuamba! Antiga Nova Freixo! A quatro centenas de quilómetros de Nampula, assim como de Lichinga. Dizem que até ao Gurúè são apenas duas horas de carro.

Mal cheguei a Cuamba instalaram-me na casa azul. Será que tem luz? Será que tem água? Perguntar se tem internet é como perguntar numa pensão em Portugal se tem piscina de água quente. Portanto, não perguntei. Porque seria uma pergunta sem contexto.

Ia almoçar e jantar à paróquia S. Miguel que dista daqui uns 15 minutos a pé.
Logo no primeiro dia, lá ia eu com a minha saquita às costas, onde levo sempre uma máquina fotográfica e um caderno de apontamentos, e uma criança mesmo pequena atira: olá branco. Olhei para ela. Deu-me vontade de dizer olá pretinho, mas calei-me.
No entanto, os voluntários dehonianos que estiveram cá em 2010 a trabalhar em bibliotecas falavam muito no P. Leonel e no P. Rogélio. Eu nunca os tinha visto. Apenas algumas fotos.
Chegava eu de avião e estava no aeroporto de Nampula à espera da mala. Vejo um indivíduo cuja cara não me era estranha. Você chama-se Leonel? Sim. Ah É o padre Leonel. Sim. Sou. Assim fiquei a conhecer um dos padres mais falados pelos voluntários dehonianos.


Estava eu já a pensar vir para Cuamba de comboio, mas eis que a Ir Marli organizadora do congresso que eu vou intervir, a dizer que o P. Leonel vem para Cuamba e dá-me boleia. Óptimo. Assim foi. Segunda-feira dia 21 de Novembro às 5 horas da manhã em ponto, arrancamos de Nampula para chegarmos aqui a Cuamba pelas 12 horas.

Paramos apenas uma vez, porque um polícia pôs-se no meio da estrada, obrigando-nos a parar. Queria boleia para o posto de trabalho dele. Lá levamos o homem uns bons 15 quilómetros no meio de buracos e pedras.

O P. Rogélio? Estava eu a escrever no meu caderno estas notas sentado numas cadeiras mesmo fora do refeitório da paróquia e eis que entra um padre: chamo-me P. Rogélio e estou agora em Mecanhelas. E lá falou do Eduardo, da Maria, do Paulo, da Natália, do Rogério e do fotógrafo de Arouca. É que veio para uma reunião dos padres da Consolata aqui no norte de Moçambique, onde estava também o P. Frizzi que escreve muito sobre os macuas. É um tipo Elias Ciscato cá do Niassa.

Também estava ali sentado, porque uma antiga leiga para o desenvolvimento, disse que queria falar comigo às 17 horas. Esperei. Esperei. Não apareceu…Pois…

No dia a seguir, uma brasileira, Raimundinha, leiga consagrada, mulher de chás de plantas medicinais, convidou-me a ir a Mitúcuè, antiga missão da Consolata, que tem hoje à sua volta 66 comunidades que funciona como segunda paróquia. Ali a Raimundinha apresentou-me uma árvore que se chama Índia e que tem efeitos medicinais para a malária, parasitas intestinais, pele e anticonceptivos.

Bem, a paróquia aqui em Cuamba chama-se S. Miguel Arcanjo e tem à sua volta 96 comunidades cristãs.
Aqui Cuamba está em tempo de eleições. O administrador demitiu-se e então há um candidato da Frelimo (homem) e um candidato do MDM (mulher). São bandeiras, carros da Frelimo a passar, já que ao que me parece o único carro do MDM que anda a fazer propaganda é o carro do pai da candidata já que o resto é à base de bicicletas.

Ainda hoje, estávamos para ir almoçar e aparece a ministra do ambiente de Moçambique para falar com o pároco e pedir-lhe para que peçam ao povo para não haver violência durante a campanha.
Pois no primeiro dia, foram vários feridos para o hospital….
Para impressionar o povo estão a substituir os postes de electricidade da cidade. Tiram os de cimento que estão bons e colocam uns de madeira que daqui a algum tempo caem de podres…

E os caminhos cheios de pó, bandeiras a voar no meio do pó, cá estamos nós nesta terra, a ouvir de vez em quando o comboio a apitar, ou porque está a fazer manobras, ou porque está a experimentar o apito, ou a sair para Cuamba ou para Lichinga (de mercadorias e uma vez por mês).

E agora vou dormir ao som do apito do comboio, porque amanhã então na Faculdade de Agricultura de Cuamba começo as minhas conferências sobre o papel da educação no desenvolvimento da sociedade para professores do secundário e da universidade.

Assim, foi todo o dia de hoje na Universidade a discursar e a dialogar sobre a educação. O problema foi convencer um professor de que a mentira não é um valor nem se deve praticar. Dizia ele: se estou preso, peço ao guarda para ir à casa de banho, depois fujo. Esta mentira para sair da cadeia é correcta diz ele. E eu perguntei: e você é professor? Pois sou, diz ele. E eu respondi: pois.

Fiquei mal impressionado com o que me disseram: que os professores em Cuamba estão sempre Mal apresentados e bebem de mais. Espero que alguma coisa tinha ficado hoje depois de falarmos de educação, desenvolvimento, sociedade, escola contemporânea.
Amanhã há mais…
Do Seminário e da viagem de comboio Cuamba Nampula falarei depois. É um espectáculo.
Cuamba, a capital do algodão.
Cuamba, 27 de Novembro de 2011
Adérito Barbosa

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

domingo, 6 de novembro de 2011

ALVD NO COBUÉ: 30 de Agosto a 11 de Setembro

No dia 30 de Agosto, terça-feira, logo de manhã cedo, a irmã Olívia e os três voluntários de Viseu (padre José António, Sónia e Ju) foram buscar-nos a casa, para iniciarmos a nossa viagem para o Cobué. Passámos por várias aldeias, sendo que as casas encontravam-se à beira da estrada. Vimos várias mesquitas e vários muçulmanos nas ruas, pois era o último dia do Ramadão.

Depois de pararmos em Metangula para almoçar, continuámos a nossa viagem: passámos por mais aldeias, mais embondeiros, muitas “torres de formigas” e muitas paisagens lindíssimas.

Chegámos ao Cobué, eram quase cinco da tarde, o que significa que o sol estava quase a pôr-se. Então, apenas houve tempo para nos instalarmos no sítio onde iríamos ficar a dormir nos 13 dias que se seguiram e de ir tomar banho no Lago Niassa.

Depois do jantar, fomos ver as estrelas lá para fora (o céu estava muito estrelado), enquanto rezávamos o terço. Acabámos por nos deitar por volta das 21h.

No dia seguinte, tivemos missa logo às 8h. As pessoas na igreja sentam-se homens de um lado e mulheres do outro.

Depois da missa, fomos lavar a loiça ao lago e vieram três miúdos atrás de nós. À medida que íamos descendo a rua em direcção ao lago, iam juntando-se mais crianças; ou seja, chegámos ao lago com mais de vinte pessoas. Estive a tirar-lhes fotografias (eles adoram ser fotografados e depois ver logo a fotografia na máquina) e ensinei-lhes um jogo. Quase ninguém sabia falar português (ali na zona falam um dialecto chamado nianja), então só as crianças mais velhas é que conseguiam perceber mais ou menos aquilo que eu dizia.

Quando regressávamos a casa, passámos por umas casas e ouvia alguém chamar pelo meu nome.
Olhei para trás e era uma rapariga, talvez da minha idade, que nos convidou para ir comer “shima” (é uma papa feita com farinha e água, que parece puré, mas é mais dura e insonsa). Entrámos em casa dela, provámos a “shima”, mas não pudemos ficar muito tempo, porque tínhamos de ir almoçar com o grupo.

Depois de almoço estivemos apenas a conhecer o Cobué e as praias. Numa das praias, estavam crianças a lavar a loiça, que nos vinham pedir para lhes tirarmos fotografias, para eles poderem ver logo a seguir.

Na manhã do dia 1 de Setembro, estivemos a dar uma pequena aula de português, ao ar livre, às crianças, a pedido da irmã Olívia. Começaram por ser apenas 20 miúdos, mas quando dei por ela eram já cerca de 40. Como a maioria não percebia português, a única coisa que fizemos, eu e a Patrícia, foi dizer os nossos nomes, perguntar os deles e escrever em folhas frases, como “Como te chamas?”, “Eu chamo-me Catarina” e “Quantos anos tens?”.

Depois desta pequena aula de português, fomos até ao lago e algumas crianças vieram também e brincaram connosco na água. Fomos deitar-nos um pouco na areia e eles vieram deitar-se ao nosso lado. Ao início mantinham uma certa distância, mas depois alguns deles acabavam por vir para cima das nossas toalhas. Como eles começaram a meter-se connosco, nós também nos metemos com eles, então eu ensinei-os a fazer um coração com as mãos. Eles riam-se imenso e imitavam o que eu tinha feito; alguns começaram a desenhar corações na areia. Eu levantei-me e fui para a beira do lago desenhar coisas simples, como corações e flores, na areia molhada. Depois eles começaram a pedir-me para escrever os nomes deles na areia. Relembro que a maioria não sabe falar português, portanto comunicar com eles é um pouco complicado. Mas, para estas crianças, sorrir para eles, dar-lhes as mãos ou fazer-lhes cócegas é o suficiente; não são precisas palavras, basta dar-lhes um bocadinho de carinho.

Depois de almoço, fomos a mais uma missa, celebrada pelo padre José António.
De seguida fomos para uma zona da aldeia mais longe do sítio de onde estávamos, para visitar o marido da mamã chefe (a mamã das mamãs, a mais velha das mamãs), chamado Leonardo, que tinha sido amputado há pouco tempo e, por isso, não se podia deslocar para ir à missa.
As crianças vieram connosco. Eram cerca de 40 e todos queriam dar-nos as mãos.
Quando saímos de casa do senhor, fomos até ao lago com as crianças, onde lhes ensinei o “aram sam sam”. Tentei que eles ficassem todos juntos na praia e continuassem a fazer o “aram sam sam”, porque íamos para casa, mas era impossível: eles andavam sempre atrás de nós, a agarrar-nos as mãos e os braços. Sempre que púnhamos um pé fora de casa, vinham logo os miúdos atrás de nós para nos dar as mãos e passear connosco.

No dia seguinte, dia 2 de Setembro, uma sexta-feira, enquanto uns foram comprar pão para o pequeno-almoço (havia apenas uma padeira no Cobué, que fazia uns pães muito bons), eu fiquei em casa. Entretanto, apareceram umas crianças com cadernos, porque queriam aprender mais português. Como nessa manhã íamos celebrar missa a outra aldeia, chamada Mataca, não tinha tempo para estar com eles e ensinar-lhes português, então dei-lhes uns lápis e umas canetas (fornecidas pelo padre José António) e eles estiveram a fazer desenhos. Ao distribuir as canetas, disse-lhes que era apenas uma para cada um e eles respeitaram isso, de tal forma, que houve um que me tentou enganar e eu dei-lhe uma segunda caneta, e os outros foram logo todos tirar-lhe a outra caneta do bolso para me devolver, porque era só uma para cada um. Mostraram-me as suas obras de arte, depois do pequeno-almoço, e a maior parte, principalmente as meninas, tinham desenhado uma árvore que, em vez de folhas, tinha corações, e eu gostei muito dos desenhos.

Seguimos para a Mataca e, depois da missa, fomos visitar a aldeia. A senhora Maria (a única mulher que foi à celebração) convidou-nos para almoçar na casa dela. Nós aceitámos e, enquanto o almoço não estava pronto, fomos até à praia da Mataca.

Aqui, quando alguém convida outras pessoas para comer em sua casa, primeiro comem as visitas e só depois é que comem os habitantes da casa. Então sentámo-nos a comer.
Na manhã de Sábado, dia 3 de Setembro, fomos para a praia do lago, logo depois do pequeno-almoço. As crianças vieram connosco e estivemos todos a brincar: comecei por lhes atirar com água para cima, na brincadeira, e depois vieram todos ao mesmo tempo atirar-me com água. Depois fingia que era um crocodilo e ia atrás deles, fazendo-lhes cócegas. Também estiveram a experimentar champô e gel de banho. Adoraram e estavam sempre a pedir-nos que lhes déssemos gel de banho para se lavarem, como eles nos viam a fazer.
Nesse dia aprendemos a lavar a loiça com areia, que é como eles lavam lá. A verdade é que a loiça fica muito mais limpa; as panelas ficam completamente sem a parte queimada. Quem nos ajudou a lavar a loiça e nos ensinou como se fazia foi uma rapariga chamada Glória. Algumas crianças também nos vieram ajudar e depois vieram connosco até ao poço, para passarmos a loiça por água.
Voltámos para nossa “casa” e eu trouxe o alguidar da loiça lavada na cabeça, como elas fazem cá, e segurava nele com uma mão, enquanto a outra mão estava dada à Mel, a menina que vinha sempre dar-me a mão.

Ao final da tarde, veio um rapaz ter comigo e deu-me um desenho, dizendo que era o meu retrato. Eu adorei e emocionei-me, então dei-lhe um abraço, como forma de agradecimento; eles aqui não estão habituados a dar abraços, então o rapaz ficou meio embaraçado, sem saber muito bem o que fazer.
No dia seguinte, depois do almoço, a Joyce (uma rapariga do Cobué) esteve a fazer-nos uma visita guiada, a mim e à Patrícia: estivemos na escola secundária, na escola primária, no posto da polícia, na maternidade, no posto de saúde, no mercado e, por fim, na casa do administrador, onde fomos muito bem recebidas pela sua mulher, que nos mostrou o interior da casa.

Na segunda-feira, dia 5 de Setembro, começaram as obras da igreja do Cobué. Nesse dia foi a primeira vez que experimentámos a papaia de cá, que é muito boa.
No dia seguinte, fomos até Likoma, uma ilha que pertence ao Malawi. Dirigimo-nos para a praia, para apanhar o “chapa” (marítimo). Chegámos ao nosso destino e fomos visitar a Catedral Anglicana de S. Pedro. Passámos, ainda, pelo hospital, o cemitério e pelo centro da cidade.

Chegámos ao Cobué e, depois do almoço, estivemos a cantar a “árvore da montanha” com os miúdos, que iam sempre para a porta da nossa “casa”ter connosco. E, quando não saíamos de casa, eles conseguiam ver-nos pela janela e chamavam os nossos nomes.

Na quarta-feira, saímos de manhã, para ir visitar o posto de saúde. Cruzámo-nos com a Joyce, que veio connosco. Aproveitámos para ver a maternidade; estivemos na sala onde elas costumam ficar internadas, depois deterem os bebés.

Passámos pelo padre Leonardo e demos-lhe os parabéns, porque, naquele dia, era o seu 40º aniversário.

Depois do almoço, enquanto eu e a Patrícia fomos com a Joyce à escola secundária assistir a um jogo de futebol, a Sónia, a Ju e o padre José António estiveram a preparar a formação de catequese que o último iria dar aos animadores do distrito nos três dias que se seguiram.
Houve missa às 18h, para celebrar os anos do padre Leonardo, que depois jantou connosco. Cantámos-lhe os parabéns e comemos bolachas.

No dia seguinte começou a formação de catequese, então tivemos oração logo às 8h. Assistimos um pouco à formação, mas às 10h eu, a Patrícia e a Ju fomos até à Escola Primária Completa de Cobué, porque a Ju, como é enfermeira, ia falar da importância de se lavar os dentes e as mãos. Eu e a Patrícia também fomos para podermos recolher imagens (fotografias e vídeos).
Esta escola não tem mesas nem cadeiras, portanto os alunos sentam-se no chão, com os cadernos e livros aos joelhos (os que têm cadernos e livros, porque há muitos que não têm), enquanto os professores ou ficam de pé, ou sentam-se numa cadeira.

Depois do jantar, houve um tempo de convívio entre os animadores, onde se esteve a cantar e a dançar.
Na sexta-feira, a formação de catequese continuou e antes das 16h houve missa. Depois do jantar fomos fazer uma oração com os animadores.

Na manhã seguinte, fui com a Joyce ao posto de saúde (o filho dela estava doente), enquanto decorria a formação de catequese. No posto de saúde não existem senhas e as pessoas não são atendidas por ordem de chegada: primeiro entram os homens e só depois é que entram as mulheres com crianças.
Antes do almoço houve missa e foi a mais emocionante: foi a missa de despedida do grupo (que ia voltar para Portugal) e do padre Leonardo (que vai estudar para Portugal, na Universidade Católica). Como forma de agradecimento por termos lá ido, a paróquia de Cobué ofereceu uma capulana a cada um de nós.

Depois do almoço, fomos com os miúdos até à praia, pois iríamos apanhar o barco para ir passear até outra paróquia do padre Leonardo.
A viagem de regresso ao Cobué foi muito agradável: vimos o pôr-do-sol e andámos de barco já de noite, apenas com a lua cheia a iluminar-nos. Pensei o quão agradecida estava por estar ali e por estar a experienciar algo desta dimensão e desta responsabilidade, tendo apenas 21anos. Pensei “quantas pessoas de 21 anos podem dizer que já andaram de barco no Lago Niassa, enquanto viam o pôr-do-sol? E quantas pessoas de 21 anos podem dizer que estiveram em contacto com as crianças e as pessoas como as que eu estive em contacto no Cobué?”. Senti-me (e sinto-me) a pessoa mais sortuda do Mundo. Acho que nunca tinha estado tão agradecida por estar viva e por estar a viver.

Foi a nossa última noite passada no Cobué e, no dia seguinte, o padre José António celebrou a última missa, sendo que fomos embora logo a seguir.

Catarina Ramalheira e Patrícia Sales

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Sinais da presença dehoniana em Moçambique

Falar sobre a presença dehoniana em Moçambique é recuar no tempo e ir aos meus tempos de menino e moço quando no seminário Pe. Dehon ouvia deliciado as histórias que os nossos missionários que estavam naquele país contavam na sua passagem a caminho de umas merecidas férias. Nessa altura, pensava como devia ser bela essa vida cheia de aventuras, imprevistos e muita coragem e confiança em Deus à mistura. Os anos foram passando e fui acompanhando, por vezes preocupado, mas talvez sem o entusiasmo juvenil dos primeiros tempos, a actividade dos nossos missionários que passaram por momentos difíceis nos tempos da independência de vários países africanos, mas permaneceram corajosamente firmes junto das suas comunidades cristãs.

Os anos foram passando e quando nada o fazia prever, nem estava nos meus planos mais imediatos, eis que me surgiu a oportunidade de acompanhar um grupo de jovens voluntários até à Diocese de Lichinga, situada na Província do Niassa, no Norte de Moçambique. Era a oportunidade de recordar vendo “ao vivo e a cores…” todas aquelas histórias contadas com tanto carinho nos primeiros tempos de seminário.
Foi assim que partimos para uma experiência missionária de um mês (Agosto) 11 voluntários cheios de entusiasmo e vontade de oferecer um pouco das suas vidas àquele povo simples e humilde, acolhedor e feliz, alegre e sonhador. Na nossa bagagem levámos a vontade de ser próximos e amigos, úteis e solidários vivendo com entusiasmo o seu dia-a-dia. Tínhamos consciência que no dar e receber nós íamos sair beneficiados, mas isso faz parte da recompensa que é dada a todos aqueles que amam e se entregam sem reservas aos outros…

Agora já em Portugal recordo o carinho, alegria e amizade que nos foram dispensados por todos os locais de missão por onde passámos. Isto sucedeu em todas as comunidades dehonianas que nos acolheram e em outras comunidades onde o sorriso acompanhado de um cafezinho ou chá nos davam as boas vindas… A comunidade dehoniana na Casa Pe. Dehon em Maputo faz autênticos milagres para acolher os tantos voluntários e não só que lá pedem abrigo nem que seja por uma noite. Obrigado Padres Mario, Ruffini e Abel!

Apesar do cansaço já se notar em muita gente ninguém se esquivou (sempre era o nosso primeiro dia em Maputo, capital de Moçambique…) à oferta de visitar o Escolasticado Filosófico Dehoniano em Matola. Aqui ouvimos a já conhecida odisseia do Pe. Toller no tempo da guerrilha quando foi raptado e libertado pela RENAMO. Nesta altura o sono já ia fazendo estragos no grupo, mas indo buscar forças não sei onde houve ainda coragem para desafiar o Pe. Lázaro a mostrar-nos um pouco de Maputo “by night”. Houve quem só viu com um olho, mas deu para ficar com uma ideia meio tremida e aos flashes…

À chegada a Lichinga tínhamos à nossa espera D. Elio Greselin que com a sua espontaneidade e alegria contagiante cativou logo toda a gente chamando-nos “vadios” bem-vindos… Não posso esquecer a presença discreta, serena, amiga e cordial do Irmão Giuseppe Meoni que chegando das suas férias em família, na Itália, quando já nos encontrávamos em Lichinga nunca mais nos largou interessando-se por tudo e zelando para que nada faltasse para o êxito da nossa missão.

A diocese de Lichinga para além de ser muito grande não é nada fácil de gerir e precisa de muito apoio a todos os níveis. É uma Diocese ainda muito desorganizada e que possui um clero que ainda não compreendeu ou não quer compreender o seu bispo que quer renovar mentalidades e dotar a diocese de estruturas que garantam a sua sustentação e autonomia económica sem recorrer às sempre imprevisíveis ofertas que chegam do exterior. Outro sonho é o de atrair jovens estudantes com a construção de um polo universitário na cidade. Devido à extensão territorial da diocese, D. Elio procura e convida congregações de Irmãs que queiram constituir comunidades religiosas em algumas missões que estão abandonadas há muito tempo. Para além da presença espiritual tão necessária seriam também uma garantia de sucesso para as escolinhas que acolhem crianças e lhes dão formação humana e intelectual. Já lá estão várias congregações que fazem tanto e com muita dedicação (Teresianas, Reparadoras de Nossa Senhora das Dores de Fátima, Religiosas do Amor de Deus; Irmãs S. José de Cluny, Irmãs Missionárias da Consolata…) mas são poucas para tantas necessidades. Permito-me destacar o trabalho de duas Irmãs não por que façam mais do que as outras, mas porque colaborei mais com elas: a Irmã Olívia que é a “ponte de ligação” dos voluntários que partem de Portugal para Lichinga. Alguém lhe chamou a “Irmã todo o terreno” e a “Super-Irmã” pela capacidade que tem de chegar a todo o lugar sempre bem-disposta e com a solução adequada para qualquer problema e a Irmã Maria José que com a sua irreverência e alegria contagiante consegue motivar todos os que estão a sua volta. Um obrigado muito grande para todas vós pelo vosso testemunho e amizade.

Já o sabíamos à partida e, por isso, foi com a maior das naturalidades e com votos de bom trabalho que nos íamos despedindo dos subgrupos que iam sendo espalhados por várias missões da diocese: a Telma e a Isabel foram para Marrupa; a Joana, Milu e Gabriela para Mitande; a Patrícia e a Paula na primeira semana ficaram na cidade de Lichinga e depois rumaram até Massangulo; finalmente o Vítor e o Ricardo trabalharam na biblioteca do ESAM na catalogação e distribuição por várias bibliotecas das toneladas de livros que são recolhidos aqui em Portugal e enviados para lá e, na última semana, foram até Metangula dar um curso de informática. O trabalho das nossas meninas consistia em encontros de formação e partilha com as educadoras e auxiliares de educação das escolinhas confiadas à Igreja. Claro que o momento mais desejado e apetecido do dia era o contacto com aquelas crianças com uns olhos muito bonitos e um sorriso de orelha a orelha a pedirem uma foto… Houve quem tirasse 500 fotos só num dia… É obra!...

Diz-se que “cada um tem aquilo que merece…” e, por isso, tive o privilégio de visitar algumas das primeiras missões dehonianas que ficam nas Províncias de Nampula e da Zambézia. Na cidade de Nampula encontrei o Arcebispo D. Tomé (dehoniano) confiante e empreendedor com uma grande vontade de formar bem o clero da sua diocese, nem que para isso tenha de o enviar até à Europa por alguns anos. Está empenhadíssimo na criação de algumas infra estruturas que sejam respostas concretas para várias necessidades da Diocese de Nampula. Projectos e sonhos há muitos, mas será precisa a boa vontade de muitas pessoas para que eles se concretizem. Na Paróquia de S. Pedro, confiada aos dehonianos, os Padres Ciscato, Augusto e Riccardo não tem mãos a medir para acompanhar os vários centros de culto espalhados à volta da paróquia (alguns a muitos quilómetros do centro) e tantos movimentos que fervilham na sede da paróquia como a catequese (infantil, jovens e adultos), acólitos e outros movimentos que necessitam da sua assistência contínua.

A presença em Nampula da Companhia Missionária, mais conhecidas por “Mariolinas…”, devido à actividade e à genica da Mariolina, uma das consagradas, é muito importante no campo do ensino e no acompanhamento de várias jovens vocacionadas. Com a ajuda da ALVD e do Pe. Adérito foi criada e montada uma biblioteca que é já um ponto de referência para os estudantes da cidade que encontram nela o que as bibliotecas do estado não conseguem dar.

Uma das minhas curiosidades era o Alto de Molócué porque lá tinha estado durante um ano de voluntariado a minha paroquiana Vera. Testemunhei o belo trabalho que os elementos da ALVD lá foram fazendo ao longo dos últimos anos e continuam a fazer. Parabéns a todos os que contribuíram e continuam a contribuir para que esta missão possua as condições necessárias para o trabalho que lhe é pedido. Encontra-se lá neste momento o António que vai dando explicações sobre todas as matérias escolares e introduzindo os interessados no mundo da informática. Esta missão passou ainda há pouco tempo por um momento muito doloroso com o acidente que vitimou a Maria Arbona. Sabemos que a vida continua e senti que ela é recordada com muito carinho: rezam por ela pedindo que ela reze por eles junto do Pai da Vida.

Seguindo viagem chegámos à grande missão de Milevane que ao longo dos anos já foi palco de muitas cenas… Imagine-se que a casa enorme que já foi um seminário, também já foi um quartel durante a guerra civil. Actualmente prepara-se para receber os noviços da Província SCJ de Moçambique. É uma casa linda com belos jardins mas que obriga a uma manutenção constante e dispendiosa já que os tempos de guerra deixaram feridas muito grandes no edifício.

A última paragem desta visita relâmpago foi o Gurúè, terra do famoso chá e do Centro Polivalente Leão Dehon. É espantoso o belo trabalho que é desenvolvido por esta escola que para além da formação de novos profissionais realiza trabalhos de carpintaria e de arte que são requisitados de muitos lados de Moçambique. O Pe. Hilário, ajudado pelos Padres Claudino e Lázaro, está atento aos sinais dos tempos (as crises não aparecem só na Europa…) e vai orientando com prudência e sabedoria a autonomia económica da escola. Penso não cair em exagero ao afirmar que este Centro Polivalente é a maior empresa daquela região dando emprego a muita gente e, por isso, garantindo melhores condições de vida a muitas famílias. O Pe. Hilário não se cansa de agradecer à Província Portuguesa SCJ a ajuda e o apoio que sempre lhe prestou e que tornou possível que o sonho do Centro se tornasse uma realidade. Aprecia e admira muito o trabalho dos jovens voluntários mas sugere que no futuro se pense também em enviar gente mais avançada na idade: reformados ou pessoas que possam dispor do seu tempo e dedica-lo a esta causa do voluntariado. Informa que no Centro existem pequenas casas que podem ser ocupadas e que favorecem a estes possíveis voluntários uma vida mais independente da comunidade religiosa. Aqui fica o desafio: haja vontade de trabalhar que trabalho não falta…

Já em Lichinga, depois desta viagem, percebi a razão do entusiasmo e da alegria que os missionários, de passagem por Portugal, nos transmitiam quando eu era ainda uma criança no seminário. Só quem ama sem limites e se doa aos outros sem condições é capaz de construir as obras tão belas que eu tive a felicidade de ver e sentir.

Obrigado a todos os meus confrades moçambicanos e a todos(as) aqueles(as) que tiveram a ousadia e a alegria de partilhar um pouco das suas vidas comigo.

Padre José Manuel