sexta-feira, 20 de abril de 2012

ALVD Madeira em Movimento

13 de Abril
Celebração de Envio
Na passada 6ªfeira, dia 13 de abril, realizou-se o envio de mais dois voluntários com destino à Missão Dehoniana de Alto Molócuè: o Rubén e a Halska. Formados na área da medicina e antropologia respetivamente, o casal ficará na missão por um período de aproximadamente 8 meses e procurará dar continuidade ao trabalho que tem vindo a ser desenvolvido pelos voluntários quer no Centro Juvenil de Alto Molócuè, quer nas comunidades católicas espalhadas pelo território deste Distrito.

Depois da missa de envio houve um jantar convívio. A noite terminou, como não podia deixar de ser, com uma típica poncha, acompanhada de muita animação e boa disposição.

Confiantes de que darão o melhor de si, acompanhamo-los na nossa oração com o sincero desejo que esta seja uma experiência muito proveitosa para eles, para a comunidade que os acolhe e para o povo de Alto Molócuè.

Até breve Rúben e Halska! Ou, em lomwé: Nnamukumana!

14 de Abril
Formação sobre a Espiritualidade Dehoniana e Espetáculo de Solidariedade
Para o grupo de 7 voluntários que se prepara para realizar a experiência de voluntariado missionário durante o mês de agosto deste ano, o dia começou pelas 10h da manhã na Casa do Povo da Camacha. Na parte da manhã, os assuntos foram de cariz mais prático, e andou-se sobretudo em volta do projeto de intervenção no Centro Juvenil de Alto Molócuè e da organização dos próximos eventos de angariação de fundos e divulgação da associação agendados.

Depois do almoço e, com um público mais alargado, o Pe. Roberto falou-nos da espiritualidade dehoniana – o Pe. Dehon, a Congregação e as Missões. Aproveitamos também para agradecer a sua disponibilidade, trabalho e testemunho de verdadeiro missionário.

Este sábado, recheado de atividade, não poderia ter terminado de melhor forma. Com vista à angariação de fundos, o grupo que se prepara para realizar a experiência de voluntariado em agosto, organizou no auditório da Casa do Povo da Camacha um espetáculo de variedades que contou com a colaboração gratuita de vários grupos, pessoas e instituições, num verdadeiro movimento solidário. O auditório tornou-se pequeno para os muitos que quiseram assistir e ajudar nesta causa. Estima-se que tenham assistido ao espetáculo cerca de 140 pessoas e que tenham sido vendidos cerca de 200 bilhetes. Não podemos deixar de agradecer a boa vontade e generosidade de todos os que, de alguma forma, deram a sua colaboração. 

15 abril No dia 15 de abril iniciou-se a ida às paróquias nas missas dominicais. Durante a missa os voluntários ou o pe. Juan, quando presente, dão testemunho e apresentam o projeto da associação e, no final, aqueles que assim entenderem dão a sua colaboração à associação através da aquisição artigos diversos da associação (canetas, t-shirts, marcadores, tijolos, postais, etc.)

 Apesar de toda a conjetura, a generosidade e sensibilidade das pessoas perante a nossa causa permanece inalterada e só nos podemos sentir gratos. A primeira igreja a ser visitada foi no funchal - Igreja do Colégio. Nos próximos fins-de-semana os voluntários passarão por diversas paróquias continuando este trabalho de divulgação.

Elisa

quinta-feira, 19 de abril de 2012

Grupos ALVD para Africa em 2012 . ALVD... em grande movimento

1. Partiram, a 16 de Abril 2012, dois voluntários da Madeira em direcção ao Molocue (Moçambique) por um ano.

2. Partirão da Madeira em Agosto um grupo de 7 voluntários acompanhados do P. Juan também para o Molocue durante o mês de Agosto.

3. Partirá um grupo do Porto coordenado pelo P. Rosário para Luau durante o mês de Agosto.

4. Partirão três grupos da paroquia de Carnaxide sob a responsabilidade da ALVD para Cobue, Metangula e Gurue (Moçambique, coordenados pelo P. Luciano).

5. Estão a ser preparados dois grupos no Seminário de Alfragide por mim P. Adérito Barbosa com apoio do P. José Manuel para Lichinga: educadores de infância e alfabetização.

6. Partirá um casal no verão para apoiar na paramentaria em Viana (Luanda), também preparado pela ALVD.

7. A ALVD está a coordenar a publicação do livro do P. Elia Ciscato sobre a cultura Moçambicana.

8. Um grupo sob a coordenação da ALVD está a organizar um contentor de livros para a Universidade Católica Moçambicana de Lichinga e para a mesma diocese.

9. Foram enviados a 31 de Março 30 caixas de livros e computadores para Lichinga.

Ao dispor para outras informações,
Adérito Barbosa, scj

quarta-feira, 18 de abril de 2012

Testemunho de uma irmã jovem em Timor

Feliz e Santa Pascoa 2012! Citando uma mensagem de Boas Festas Pascais que uma amiga, a Alexandra nos enviou: “o Aleluia Pascal! Que ressoa na Igreja, exprime a exultação silenciosa do universo e sobretudo o anseio de cada alma humana aberta sinceramente a Deus, mais ainda, agradecida pela Infinita bondade, beleza e verdade!” Papa Bento XVI.

Esta mensagem fez-nos sentir numa profunda unidade à nossa Igreja Universal, digo mais fez-nos sentir por momentos completamente juntas a todos vós que celebrais a Pascoa em Portugal e em todos os lugares do nosso mundo com quem partilho estas minhas mensagens, um misterioso sentimento pascal!

Também as muitas mensagens das comunidades, algumas que vinham no word, imprimimos e colocámos num placard feito de Tai, sim porque temos uma impressora que funciona muito bem para o efeito, e outras vimos em comum no power point, e outras em pequenos filmes, todas nos tocarem e queremos agradecer de todo o coração a cada um e cada uma por todo o vosso carinho pascal!

Depois da Festiva e Feliz celebração de Domingo de Pascoa, aqui em Memo, decidimos, celebração de forma natural e comunitária, tratámos de preparar o almoço, melhor,  a cozinheira cá do sitio, a ir. Olívia e descemos as nossas montanhas ao longo de 1hora e meia até à “nossa” praia mais próxima, bem perto da fronteira com a Indonésia, desta vez bem me custou percorrer esta descida, já era um pouco tarde, final da manhã, tínhamos nos deitado tarde por causa da vigília pascal, e então o cansaço também nos atingiu um pouco para fazermos esta pequena viagem de 50km, mas lá chegámos! Uma praia só pra nós com agua bem quentinha do Oceano Pacifico que fez as nossas delicias nesta Pascoa de 2012! Percorri aquela praia durante horas e comtemplei o que apenas havia: o Mar, as nuvens no céu azul, o areal liso nuns bocados e  noutros cheio de diferentes seixos, pedras e lindas conchas gigantes, as quais trouxe duas que poderão ver nas imagens. A ir. Olívia ficou sentada num belo tronco junto à beira mar a estudar o tétum num manual, eu claro não posso estar quieta, maquina na mão e pronta para andar e ver tudo o que conseguir alcançar, uma irrequieta!





O ponto mais interessante logicamente, foi o nosso almoço, em cima dum tronco de uma arvore montámos o nosso festim pascal e comemos muito bem, graças a Deus, cerveja “Sagres” com o nome de Tinger, foi a nossa bebida fresquinha! Bem bom podem acreditar! Vejam as imagens!

De regresso a casa, recebemos alguns amáveis telefonemas com as saudações pascais, e apreciámos a beleza do entardecer sobre as montanhas e as nuvens, que algumas quase pareciam um vulcão em erupção, fenómenos da Mãe Natureza, o pôr-do-sol, daqui da nossa porta é também algo belíssimo, que partilho convosco.
Quero desejar-vos um feliz tempo Pascal,
Vivam felizes nesta certeza de que o Senhor Jesus Cristo, está realmente vivo e presente no nosso coração que pulsa e nos faz ter uma esperança dum tempo feliz e com sentido!
Um abraço a todos e todas e a cada um e a cada uma!
Ir. Cristina Macrino.

Da cegueira coletiva à aprendizagem da insensibilidade Ou sobre o comodismo, a violência e o conservadorismo no cotidiano moçambicano e africano, no geral‏

Moçambicanos embarcam em “chapa”
 superlotada - Foto: Reprodução
Mia Couto

Fonte:
http://www.brasildefato.com.br/node/9326

Todos os dias centenas de chapas de caixa aberta** transitam por esta cidade que parece afastar-se do seu próprio lema “Maputo, cidade bela, próspera, limpa, segura e solidária”. Cada um destes “chapas” circula superlotado com dezenas de pessoas que se entrelaçam apinhadas num equilíbrio inseguro e frágil. Aquilo parece um meio de transporte. Mas não é. É um crime ambulante. É um atentado contra a dignidade, uma bomba relógio contra a vida humana. Em nenhum lado do mundo essa forma de transporte é aceitável.

Quem se transporta assim são animais. Não são pessoas. Quem se transporta assim é gado. Para muitos de nós, esse atentado contra o respeito e a dignidade passou a ser vulgar. Achamos que é um erro. Mas aceitamos que se trata de um mal necessário dada a falta de alternativas. De tanto convivermos com o intolerável, existe um risco: aos poucos, aquilo que era errado acaba por ser “normal”. O que era uma resignação temporária passou a ser uma aceitação definitiva. Não tarda que digamos: “nós somos assim, esta é a maneira moçambicana.” Desse modo nos aceitamos pequenos, incapazes e pouco dignos de ser respeitados.

O caso dos chapas é apenas um exemplo, uma ilustração de um processo que eu chamaria de “construção do inevitável”. E é simples: aos poucos, os passageiros do “chapa” deixam de ser visíveis. Na nossa sociedade, essas pessoas já contavam pouco. É gente pobre, gente sem rosto, gente que não aparece na TV nem no jornal. Essa gente surgirá no jornal quando o “chapa” se acidentar. Mas aparecerá sem voz e sem nome. Um simples número para se contabilizar feridos e mortos. Em contrapartida, outras coisas ganharam brilho na nossa sociedade. Por exemplo, adquiriram toda a visibilidade os carros de luxo de uma pequena minoria. Deixamos de ver os “chapas” mortais, mas estamos atentos aos sinais de ostentação dessa minoria.

O assunto que quero abordar convosco hoje é esta operação que banaliza a injustiça e torna invisível a miséria material e moral. Esta vulgarização faz perpetuar a pobreza e faz paralisar a história. Saímos todos os dias para a rua para produzir riqueza, mas regressamos mais pobres, mais exaustos, sem brilho, nem esperança. De tanto sermos banalizados pelos outros, acabamos banalizando a nossa própria vida.


 Dumba-nengue

Visitou-me um escritor amigo da Nigéria. Ele percorreu as cidades de Moçambique e ligou-me de Pemba, capital da Província de Cabo Delgado, também em Moçambique. A primeira coisa que ele disse: Estou maravilhado! Vocês têm estações de gasolina a funcionar! O seu espanto espantou-me a mim. Principalmente porque esse assombro provinha de um cidadão da Nigéria, o maior produtor de petróleo de África. Só depois entendi. O que passa na Nigéria – depois de 50 anos de exportação de petróleo – é que as cidades nigerianas não possuem aquilo que para nós é comum: estações de gasolina vendendo gasolina. As bombas de combustível naquele país estão quase todas fechadas e a gasolina é vendida em garrafas e jerricans (galões para combustível) nos passeios públicos.

Para alguns esse é um processo natural na África. Mas não é. O que sucedeu foi o seguinte: o governo subsidiou os preços dos combustíveis mas não foram os mais desfavorecidos que lucraram mais. Foi uma parte da elite nigeriana que se apoderou dos circuitos formais e desviou para os mecanismos informais a distribuição e venda do combustível. Uma vez mais, os ricos tornaram-se ainda mais ricos. Mas não é a questão política que eu quero trazer aqui. A questão é que, para o cidadão da Nigéria, aquele sistema de venda, à maneira do dumba-nengue ou mercado ambulante (do ronga, confia no teu pé), se tornou normal. Ver bombas de gasolina a funcionar numa nação bem mais pobre como é Moçambique foi, para ele, um motivo de surpresa. Eu vejo muito africanos proclamarem que os mercados informais são a única maneira que África sabe fazer comércio. Que apenas nas barracas sabemos comer e beber.

É mentira. A dumba-nenguização da economia é uma estratégia escolhida para fugir dos impostos, para escapar das obrigações para com o patrimônio público. Quando o meu amigo nigeriano voltou a Maputo ele disse-me o seguinte: “A minha surpresa não foi tanto o que eu vi em Moçambique. Foi sim o que já não sabia ver na Nigéria”.

O principal aliado dos tiranos é a cultura da aceitação. Talvez alguns de vocês sabem que sou um dos autores do Hino Nacional. Quando entregamos o Hino para aprovação na Assembleia da Republica, nós não podíamos imaginar que alguns deputados se sentissem incomodados com a passagem da letra que diz: “Nenhum tirano nos irá escravizar”. É claro que a letra não fala do presente. Mas um hino é feito para durar. E quem pode garantir que um candidato a tirano não assaltará a nossa futura história? O melhor modo de prevenir esse risco não é apenas consolidar a democracia política. É investir numa cultura viva, numa cidadania de construção do futuro. O que me interessa falar aqui, numa Escola de Arte e Cultura é a dimensão cultural das nossas pequenas e grandes misérias.

A invocação da chamada “africanidade” é uma das armadilhas mais usadas pelos tiranos. No Malawi atacaram e rasgaram a roupa de mulheres pelo simples fato de andarem de calças. Mulheres de calças não é uma coisa africana – foi o que invocaram os agressores. Em nome da África, agrediram e mataram pessoas, apenas porque eram homossexuais. Em nome da pureza africana, continua-se a impedir que, apenas por serem do sexo feminino, milhares de crianças não prossigam os seus estudos. Em nome da África, cometem-se os maiores crimes contra a África. O nosso continente é feito de passado e tradição, sim. Mas é feito de modernidade. É feito de mudança. Como todos os outros continentes.

As dinâmicas de mudança confrontam-se com uma identidade feita de passado e tradição. Tudo isto tem a ver com o processo da construção do inevitável. Esse processo envolve o mecanismo da acomodação e o mecanismo da invisibilidade. A acomodação tem várias facetas. Sabemos que está errado, mas nada fazemos. Porque temos medo. Porque achamos que não tem a ver conosco. Ou porque fazemos cálculos. É melhor calar e ser promovido. É melhor recolher uns magros favores em troca do nosso silêncio e da nossa cumplicidade.


 Fenômenos

Eu rabisquei uma lista de fenômenos sociais que se tornaram invisíveis em Moçambique. A lista é bem extensa. Mencionarei apenas de alguns. O primeiro desses fenômenos é a violência. Dizemos com frequência que somos um povo pacífico. Isso é verdade. Mas os povos todos do mundo são pacíficos por natureza. O que muda é a sua história. Assim, é verdade que somos um povo pacífico, mas também é verdade que foi esse povo pacífico que fez uma guerra civil que matou cerca de um milhão de pessoas. A guerra terminou em 1992, e essa data é talvez a mais importante da nossa história recente, depois da Independência Nacional.

Terminou o conflito militar, mas não terminaram outras guerras silenciosas, invisíveis e perversas. Hoje somos uma sociedade em guerra consigo mesma. Os alvos dessa guerra são sempre os mais fracos. Estamos em conflito com as mulheres, com as crianças, com os velhos, estamos em guerra com os pobres, com aqueles que não têm poder. Somos uma sociedade obcecada pelo Poder. Quem não tem poder é como quem circula na traseira do chapa: não existe. Tudo tem uma leitura política, o mais pequeno detalhe é um recado, uma definição de hierarquias.

Quem chega primeiro à reunião, onde se senta, quem não comparece à cerimônia, com que carro chegou, de quem se faz acompanhar, tudo isso são sinais de poder. Nas ruas sou chamado de patrão, sou chamado de “boss”, porque a minha cor da pele é tida como um sinal de Poder. O vendedor de viaturas insurgiu-se com a escolha de um carro que eu queria comprar. “Deixe que escolho um carro compatível com o seu estatuto”, disse ele.


 Mulher

Estamos em guerra conosco mesmos e o primeiro desses alvos é curiosamente uma maioria: as mulheres. Em Moçambique há mais um milhão de mulheres que homens. Mas ao nível das percepções, os homens dão pouca importância a essa verdade. Eles são chefes, os donos, e olham as mulheres como uma pertença privada. As mulheres, por outro lado, ainda pedem licença para existir. A maioria das mulheres que são objeto de violência dos maridos acha que isso não é um crime. Acham normal, acham natural. Ser agredida faz parte do seu destino, da sua imutável natureza.

E conto-vos três episódios reais, que retirei da nossa imprensa apenas nas últimas semanas: Em Cabo Delgado 17 homens violaram uma mulher que se atreveu a atravessar o acampamento onde se praticavam os rituais de iniciação. Da parte das autoridades locais houve uma inaceitável passividade. Foi necessária insistência da família e de ONGs para que houvesse uma insuficiente resposta.

Em Manica, dois jovens violam sexualmente uma mulher no sétimo mês da gravidez. Em Tete, um homem mata a criança de dois meses e esfaqueia gravemente a mulher, porque, ao meio dia ele chegou à casa e a mulher se recusou a fazer sexo com ele. O jornalista da televisão que entrevista o confesso culpado sugere uma quase legitimidade do ato ao perguntar: “o senhor devia estar necessitado não é verdade?”

Reclamamos a violência da rua, mas é mais provável uma mulher ser agredida dentro de casa do que fora de casa. É mais provável uma criança ser agredida e violentada no espaço da sua família. Esta tendência não sucede apenas em Moçambique, mas no mundo. As estatísticas são reveladoras e assustadoras: cerca de 70% dos atos de violência contra a mulher acontecem dentro da casa. Mais de 60% dos assassinatos de mulheres são cometidos pelos seus companheiros ou ex-companheiros. Em todo o mundo, uma em cada três mulheres ou já foi ou irá ser agredida ou violentada. Não é pois Moçambique que é afetado de modo particular. O que sucede é que para nós essa violência é legitimada por razões que se dizem culturais.

E ainda prevalecente a ideia de que a mulher é que é culpada, porque ela é quem provoca a violência. Ainda achamos que este assunto não tem a ver conosco, que é para ser denunciado pelas ONGs. Isto é, desresponsabilizamo-nos. Mesmo sendo mulheres, achamos que este assunto tem a ver com os outros. Mesmo sendo homens, que têm mães, irmãs e filhas, achamos que isto não tem nada a ver conosco.

Eu disse que estávamos em guerra conosco mesmos. Esta guerra doméstica compõe-se de duas violências. A violência daqueles que agridem. E a violência dos que se calam. Marthin Luther King disse: “O que me entristece não é apenas o clamor dos homens maus. É o silêncio dos homens bons.”

*Parte da aula inaugural a Escola de Comunicação e Artes da Universidade Eduardo Mondlane (ECA/UEM), em 2012.

**Transportes coletivos


 Quem é

Mia Couto, ou Antônio Emílio Leite Couto, nasceu em Beira, Moçambique, em 1955. É filho de portugueses, e era militante da Frente de Libertação de Moçambique, lutando pela independência de seu país entre 1964 a 1974. Ajudou a compor o hino nacional moçambicano.

terça-feira, 17 de abril de 2012

ALVD Madeira

No passado dia 17 de fevereiro, no Colégio Missionário do Sagrado Coração de Jesus – Funchal, o núcleo ALVD – Madeira reuniu-se com o seu responsável nacional, pe. Adérito Barbosa. Aproveitámos assim a deslocação do pe. Adérito à ilha da Madeira para “(re)ligar” pontos de ação e reforçar a coesão entre os vários projetos da associação.

Após a resolução de vários assuntos práticos pendentes, foram apresentados ao pe. Adérito os membros da reformulada equipa de trabalho do núcleo da alvd – Madeira, bem como as diferentes tarefas / cargos de que cada um está incumbido. O pe. Juan teve ainda oportunidade de falar sobre as últimas atividades organizadas pela ALVD – Madeira em termos de angariação de fundos, divulgação da associação, formação de voluntários e respetivos projetos de intervenção. De realçar que, neste momento, os esforços deste núcleo regional estão concentrados na preparação dos dois voluntários que partem nos próximos meses para trabalhar no Centro Juvenil Padre Dehon – Alto Molócue / Moçambique durante um ano e na preparação do grupo que fará, em Agosto de 2012, uma experiência de um mês de voluntariado também no Alto Molócuè.


Por seu lado o pe. Adérito trouxe à mesa as novidades frescas do continente Africano de onde regressou recentemente. Novos projetos, novas possibilidades de intervenção e colaboração; viabilidades… Recebemos ainda alguns ecos relativos ao serviço prestado pelos últimos voluntários na Comunidade de Alto Molócuè. A partir daqui, é-nos possível refletir sobre os aspetos a melhorar no que toca a formação / preparação dos futuros voluntários, bem como no planeamento e enquadramento dos seus projetos de intervenção.

 No fim, balanço positivo ao trabalho que está a ser desenvolvido tanto na Madeira como em Moçambique, mas também, a consciência de que ainda muito há por fazer! O trabalho continua! Por cá continuaremos com empenho e dedicação!

Saudações da Madeira,
Elisa Freitas

segunda-feira, 9 de abril de 2012

Está à rasca a geração dos pais

Mia Couto

Está à rasca a geração dos pais que educaram os seus meninos numa abastança caprichosa, protegendo-os de dificuldades e escondendo-lhes as agruras da vida. 
Está à rasca a geração dos filhos que nunca foram ensinados a lidar com frustrações. 
A ironia de tudo isto é que os jovens que agora se dizem (e também estão) à rasca são os que mais tiveram tudo. Nunca nenhuma geração foi, como esta, tão privilegiada na sua infância e na sua adolescência. E nunca a sociedade exigiu tão pouco aos seus jovens como lhes tem sido exigido nos últimos anos.
Deslumbradas com a melhoria significativa das condições de vida, a minha geração e as seguintes (actualmente entre os 30 e os 50 anos) vingaram-se das dificuldades em que foram criadas, no antes ou no pós 1974, e quiseram dar aos seus filhos o melhor.
Ansiosos por sublimar as suas próprias frustrações, os pais investiram nos seus descendentes: proporcionaram-lhes os estudos que fazem deles a geração mais qualificada de sempre (já lá vamos...), mas também lhes deram uma vida desafogada, mimos e mordomias, entradas nos locais de diversão, cartas de condução e 1.º automóvel, depósitos de combustível cheios, dinheiro no bolso para que nada lhes faltasse. Mesmo quando as expectativas de primeiro emprego saíram goradas, a família continuou presente, a garantir aos filhos cama, mesa e roupa lavada.
Durante anos, acreditaram estes pais e estas mães estar a fazer o melhor; o dinheiro ia chegando para comprar (quase) tudo, quantas vezes em substituição de princípios e de uma educação para a qual não havia tempo, já que ele era todo para o trabalho, garante do ordenado com que se compra (quase) tudo. E éramos (quase) todos felizes.
Depois, veio a crise, o aumento do custo de vida, o desemprego, ... A vaquinha emagreceu, feneceu, secou.
Foi então que os pais ficaram à rasca.
Os pais à rasca não vão a um concerto, mas os seus rebentos enchem Pavilhões Atlânticos e festivais de música e bares e discotecas onde não se entra à borla nem se consome fiado.
Os pais à rasca deixaram de ir ao restaurante, para poderem continuar a pagar restaurante aos filhos, num país onde uma festa de aniversário de adolescente que se preza é no restaurante e vedada a pais.
São pais que contam os cêntimos para pagar à rasca as contas da água e da luz e do resto, e que abdicam dos seus pequenos prazeres para que os filhos não prescindam da internet de banda larga a alta velocidade, nem dos qualquercoisaphones ou pads, sempre de última geração.
São estes pais mesmo à rasca, que já não aguentam, que começam a ter de dizer "não". É um "não" que nunca ensinaram os filhos a ouvir, e que por isso eles não suportam, nem compreendem, porque eles têm direitos, porque eles têm necessidades, porque eles têm expectativas, porque lhes disseram que eles são muito bons e eles querem, e querem, querem o que já ninguém lhes pode dar!
A sociedade colhe assim hoje os frutos do que semeou durante pelo menos duas décadas.
Eis agora uma geração de pais impotentes e frustrados.
Eis agora uma geração jovem altamente qualificada, que andou muito por escolas e universidades mas que estudou pouco e que aprendeu e sabe na proporção do que estudou. Uma geração que colecciona diplomas com que o país lhes alimenta o ego insuflado, mas que são uma ilusão, pois correspondem a pouco conhecimento teórico e a duvidosa capacidade operacional.
Eis uma geração que vai a toda a parte, mas que não sabe estar em sítio nenhum. Uma geração que tem acesso a informação sem que isso signifique que é informada; uma geração dotada de trôpegas competências de leitura e interpretação da realidade em que se insere.
Eis uma geração habituada a comunicar por abreviaturas e frustrada por não poder abreviar do mesmo modo o caminho para o sucesso. Uma geração que deseja saltar as etapas da ascensão social à mesma velocidade que queimou etapas de crescimento. Uma geração que distingue mal a diferença entre emprego e trabalho, ambicionando mais aquele do que este, num tempo em que nem um nem outro abundam.
Eis uma geração que, de repente, se apercebeu que não manda no mundo como mandou nos pais e que agora quer ditar regras à sociedade como as foi ditando à escola, alarvemente e sem maneiras.
Eis uma geração tão habituada ao muito e ao supérfluo que o pouco não lhe chega e o acessório se lhe tornou indispensável.
Eis uma geração consumista, insaciável e completamente desorientada.
Eis uma geração preparadinha para ser arrastada, para servir de montada a quem é exímio na arte de cavalgar demagogicamente sobre o desespero alheio.
Há talento e cultura e capacidade e competência e solidariedade e inteligência nesta geração?
Claro que há. Conheço uns bons e valentes punhados de exemplos!
Os jovens que detêm estas capacidades-características não encaixam no retrato colectivo, pouco se identificam com os seus contemporâneos, e nem são esses que se queixam assim (embora estejam à rasca, como todos nós).
Chego a ter a impressão de que, se alguns jovens mais inflamados pudessem, atirariam ao tapete os seus contemporâneos que trabalham bem, os que são empreendedores, os que conseguem bons resultados académicos, porque, que inveja! que chatice!, são betinhos, cromos que só estorvam os outros (como se viu no último Prós e Contras) e, oh, injustiça!, já estão a ser capazes de abarbatar bons ordenados e a subir na vida.
E nós, os mais velhos, estaremos em vias de ser caçados à entrada dos nossos locais de trabalho, para deixarmos livres os invejados lugares a que alguns acham ter direito e que pelos vistos - e a acreditar no que ultimamente ouvimos de algumas almas - ocupamos injusta, imerecida e indevidamente?!!!
Novos e velhos, todos estamos à rasca.
Apesar do tom desta minha prosa, o que eu tenho mesmo é pena destes jovens.
Tudo o que atrás escrevi serve apenas para demonstrar a minha firme convicção de que a culpa não é deles.
A culpa de tudo isto é nossa, que não soubemos formar nem educar, nem fazer melhor, mas é uma culpa que morre solteira, porque é de todos, e a sociedade não consegue, não quer, não pode assumi-la. Curiosamente, não é desta culpa maior que os jovens agora nos acusam.
Haverá mais triste prova do nosso falhanço?

quinta-feira, 5 de abril de 2012

Testemunho da missão, 1 ano de missão em Cuamba/Moçambique/África.

Cuamba, 01/04/2012
 
“Descalça em chão sagrado”
 ”Onde meus pés pisam minha cabeça pensa e meu coração ama”

A experiência de Deus é um caminho que se constrói passo a passo. Para mim, o apelo para servir em Moçambique foi uma interpelação de Deus à qual respondi sim, o que considero um passo marcante em minha vida.

Reafirmei e confirmei o espírito missionário, na disponibilidade em assumir o desafio do novo, a aventura, o sonho de lançar-me numa realidade além-fronteira e distante do já estabelecido. Entendi, a partir daquele momento, que missão é abrir- se, despojar-se, ir ao encontro do diferente.
Ressoou em mim, o pedido de Deus a Moises: Tira as sandálias dos pés porque o lugar onde tu estas pisando é um solo sagrado (Ex 3,5)

Fui ao encontro do povo moçambicano com ternura e compaixão, profundo respeito e grande estima.
Muitas vezes meditei sobre a passagem bíblica de Isaias 49,6: Faço de você uma luz para as nações, para que a minha salvação chegue ate os confins da terra. Isso dava sentido ao dia-a-dia naquela realidade.

Este período que estou nesta realidade, fortaleceu minha convicção sobre quem são os preferidos de Deus. Ao mesmo tempo, me sentir útil e também provocada a gastar a vida junto a outros povos, sentir o diferente, sendo no meio deles uma presença solidaria. Esta sendo uma experiência muito valida e não me arrependo, nem um minuto de tê - la feito. Com certeza, se não a tivesse vivido, não faria as opções que faço hoje, no dia- a- dia.

Aprendi, na pratica do dia-a-dia, a sobreviver como o povo, sentir o sofrimento, as privações pelas quais passam.
Aprendi a andar mais devagar, a fazer menos e a ser feliz assim. É um tempo rico! Pouco a pouco, o medo, a insegurança e a solidão foram dando espaço para a vida, pois apesar de tudo, aprendemos a viver bem.

Encontrei muita solidariedade, quando pensei que era eu que deveria ser solidaria: ser escoltada por mamãs que não conhecia e não me conheciam, ter ajuda nas costuras, bordado, crochê, na limpeza das salas, dos quintais. Provei a kanpaga, a xima, a matapa - comidas e bebida da região. Foi um tempo de aprender a ser, apenas ser!

A palavra vai sendo a cada dia mais, lâmpada para os meus pés e luz para o meu caminho (SL 119, 105). O senhor da messe fez-me um grande apelo e, depois de muita oração e reflexão, o chamado se fez caminho. Abracei com carinho a causa da missão em África, na certeza de que o senhor nunca nos abandona. Pela frente, muitas incertezas, outra cultura, povo desconhecido, tudo diferente.
Mas, a luz da palavra vai apontando o caminho. È preciso estar aberta para acolher o diferente, assim como ele se apresenta, no dia a dia. Assumi os desafios e fui em frente na certeza do Eu estarei contigo ate ao fim do mundo (MT 28,20). Experimentei a grande proteção de Deus, em muitas situações fortes que encontrei!

Eu vi, vi a aflição do meu povo, ouvi o seu clamor!
Vi sangue inocente derramado, lavando a terra mãe!
Vi a ambição pelo poder
Vi a desolação! Vi escolas fechadas, fábricas destruídas...
Vi hospitais abandonados, sem comprimido, sem médicos e nem medicamentos, vi, sim, fome, sede e sofrimento!

Ali me debrucei, para formar catequistas, animadores/as de grupos, crianças, jovens e adultos, incentivar jovens missionários.

Convivo com as famílias, com os doentes, com as comunidades, partilhando e participando da vida do povo, marcando presença nos momentos alegres e tristes, nas celebrações. Incentivo e estimulo para o estudo, a reconciliação, o perdão na vivencia da irmandade.

A catequese com adultos foi à grande descoberta, na qual percebi a necessidade de cultivar a fè madura e colaborar na formação dos animadores e animadoras da comunidade. Esta sendo uma experiência maravilhosa.

Experimento alegrias, proteção de Deus, amor, companheirismo, amizade e bem querer do povo. Sinto a grande solidariedade entre os missionários e missionárias. Vi a sede de aprender, de saber, as infidas solicitações da parte do povo, o esforço de inculturacao. Experimentei a irmã doença chamada malária! A kabanga (bebida típica makua), xima, carne de elefante com batata (feito por mim, uma delicia!).

A despedida das (os) missionários que partem e o abraço caloroso daqueles que chegam, para juntos e juntas construímos nossa missão.

Participei da primeira conferencia internacional de etnobotanica em Maputo, onde puder aprender a conhecer a riqueza das plantas medicinais de Moçambique e assim ajudar no tratamento de doenças típicas do Niassa.

Um aprendizado, de profunda pratica de promover e defender a vida. Um grande obrigado a Deus, que me proporciona esta oportunidade, ao povo que nos acolhe e nos cativa e todas as coirmãs (os) missionários com as quais convivo e aprendo a contribuir para um Moçambique de paz!

Algumas fotos do nosso trabalho e convivência com o povo makua

Formação da comissão de evangelização (lectio divina)

Grande família Além Fronteira, Flor, Célia Cota e Raimundinha!


Em Nampula com as irmãs Bia e Mark (convívio alegre!).

No santuário nossa senhora da Consolata em Massangulo (presença das irmãs da Divina Providencia)

 
Visita nas comunidades São Pedro (equipa missionária).

 
Celebração dia da criança (01/06) na comunidade de Mitucue


Nas comunidades de Nipepe (visita de páscoa)

Mamãs dançarinas na Zambézia, ordenação sacerdotal.
Grande amiga da missão de Nipepe – ir. Maria Célia!

 
Grande amigo da missão de Nipepe – PE.Mabureque!



Primeira visita ao Malawi com a comunidade de Nipepe.

Caçadores de elefante, com a carne do mesmo - Nipepe.


Com as crianças no Malawi.