terça-feira, 2 de novembro de 2010

Viagens de um voluntário ALVD na Zambézia - Moçambique

Relato de João José Pereira da Silva Antunes

O presente relato traduz a minha vida de uma semana passada em redor das missões dehonianas





Na segunda-feira, dia 18, partimos em visita às missões dehonianas na Província da Zambézia. Eu, a voluntária Maria e os padres Domenico, italiano e Miguel, argentino.

Foi um percurso superior a mil quilómetros em que apenas uns cento e cinquenta foram em piso alcatroado.

Partimos muito cedo. Eram 5.15 horas.

Lavávamos connosco, pois dormiu nessa noite na nossa casa, um rapaz colocado na missão do Gurúè, o João de meu nome, ao abrigo de um qualquer acordo com o IPPAR, sendo os encargos da missão o alojamento, alimentação e lavandaria. Ali chegados pude rever tanta gente que conheci em 2005/2006. Foi realmente uma festa.

Deixado este hóspede partimos em direcção a Namarrói onde almoçámos. São dois padres Moçambicanos que tomam conta da missão. Como falta o dinheiro - só têm da diocese um valor equivalente a 20 € - têm de dar aulas no ensino oficial para poderem sobreviver. Daqui auferem cerca de 60€. Não chega para reparar as instalações, a viatura que está encostada às "boxes", etc.

Rumámos ao Gurúè onde revi outras pessoas. Ali jantámos e pernoitámos no noviciado, uma obra que estava em construção em 2006. Apesar de instalações recentes já se notava a necessidade de alguma intervenção.

Seguiu-se a missão do Ile, também abandonada e em ruínas. Os padres, neste caso Moçambicanos, estão a viver numa outra casa que lhes foi doada por portugueses.

Dirigimo-nos em direcção à missão de Nossa Senhora de Lurdes de Mulevala. Esta missão foi recuperada pelo Padre Domingos, Moçambicano, que visitei em 2006, e que veio a falecer tragicamente de acidente quando regressava a casa depois de ter ido levar uma doente ao Hospital de Quelimane. Actualmente estão lá dois padres moçambicanos, um deles o Padre Sigome, que tive o gosto de receber em minha casa por duas vezes. Aí almoçámos do que levávamos pois esta missão vive em extrema dificuldade não apenas pela pobreza em si mas porque a morte do Padre Domingos, que também recebi em minha casa, deixou muitas dívidas e os actuais padres desconhecem as fontes de financiamento que existiam.

Dali nos encaminhámos para a missão de Mocubela, também ela ao abandono e sem padres.

Pebane foi a missão seguinte.

Aí permanecem dois padres Moçambicanos. Um, o Padre Barnabé, esteve também comigo em minha casa.

É sempre uma alegria encontrar estes amigos.

Nesta missão pernoitámos duas vezes.

Fomos recebidos "principescamente" apesar da pobreza reinante.

No dia seguinte à chegada, na véspera chegámos à noite, foi o nosso único descanso.

Fomos à praia. Pela primeira vez na vida vi o Oceano Índico. Praia realmente bastante limpa - também as pessoas que a visitam são raras. - Água espectacular, onde ainda nadei um pouco. Maravilhosa temperatura. Ao sair da água fui correr um pouco tendo de imediato a companhia de um jovem que foi desfiando as dificuldades existentes. Curiosamente não pediu nada.

Nesta missão pude constatar que há alguns jovens, que têm o nome de vocacionados, que não podem ingressar no Seminário porque as famílias não têm sequer o valor que lhes possibilite a inscrição, ou seja, a propina. Foi-me dito que há muitas outras missões onde isso acontece.

Após a segunda noite em Pebane continuámos a nossa visita.

Passámos por Moalama onde visitámos as antigas instalações, a decaírem actualmente, pois aí também não há padres.

Verificamos que em cada missão havia sempre a igreja, de um lado a casa dos padres e do outro a casa das irmãs. Havia ainda, por regra o Hospital da missão. Todos estes hospitais foram nacionalizados e estão hoje ao serviço como centros de saúde. De condições não vou dizer nada.

Rumámos ao Nabúri onde a situação é igual. Nesta missão, com um muro a servir de mesa almoçamos o resto que nos sobrava.

A missão seguinte dá pelo nome de Gilé.

Aqui existem dois padres, um brasileiro e um indiano, ambos Claretianos.

Passámos aqui a noite, tendo também jantado.

Rumámos à missão seguinte, tendo de atravessar o rio, como fizéramos na véspera, por uma "ponte" sempre a ver quando é que ficávamos encravados, o que estava a acontecer com uma carrinha quando chegámos pelo que aguardámos um pouco até que ela conseguisse passar.

Esta situação da travessia está a acontecer desde há algum tempo prevendo-se que ainda no corrente ano terminará a construção de uma nova ponte.

A missão seguinte dá pelo nome de Moneia.

Igualmente está ao abandono embora os Claretianos estejam já a providenciar a vinda de dois dos seus padres, que serão um brasileiro e um indiano.

A África incorpora um "batalhão" de Claretianos pois existem mais de seiscentos, não sei se sacerdotes apenas ou também religiosas e leigos.

Pusemo-nos a caminho em direcção a Muyana.

Coincidiu esta visita com a presença do Bispo da Diocese, D. Francisco Lerma, missionário da Consolata, que, quando chegámos, estava a celebrar a eucaristia campal e a administrar o Sacramento do Crisma.

Chegámos, dirigimo-nos à residência e fui, de máquina em punho, documentar um pouco a cerimónia.

O padre brasileiro viu-me e associou-me de imediato à nossa chegada pois estava alertado dela. Quando me dirigia para o carro para ir buscar a minha inseparável água, ouço alguém atrás de mim a dizer bom-dia. Respondi do mesmo modo mas nem me virei pois imaginei alguém já a querer pedir alguma coisa. Era o padre que abandonou o altar e veio para saber se éramos quem estava à espera. Dirigiu-se de novo ao altar. Volvidos uns instantes volta a sair do altar dirigindo-se à casa para mandar acrescentar o "tacho" para mais quatro.

Ao almoço aproveitei a ocasião para conversar com o Sr. Bispo sobre a questão dos vocacionados que querem ir para o seminário e não têm dinheiro para o fazer. Ficou com o meu contacto e vai-me informar sobre os custos da formação destes alunos no Seminário para ver se consigo arranjar algum "padrinho" de seminarista, à semelhança do que acontece com as crianças.

De seguida passámos por mais uma missão, Alto Ligonha, ao abandono sendo a próxima estação o regresso a casa.

Foi uma experiência maravilhosa embora extremamente cansativa."

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