quarta-feira, 3 de novembro de 2010

O testemunho de três jovens na imprensa arouquense




AVELINO VIEIRA

Moçambique, ou deverei dizer Província do Niassa?! Pois, quem ouve falar em Moçambique é capaz de pensar na capital (Maputo) e não se lembrar do restante país.
A verdade é que no Niassa vemos um mundo completamente diferente, muita pobreza e condições quase nulas.
Mas ao ver que o povo de lá vive tão tranquilo – não tendo praticamente nada é tão feliz e alegre – cheguei à conclusão que vivo numa comunidade com um povo ingrato, que por mais que tenha nunca fica satisfeito. Nós somos assim, podemos não ter noção mas se reflectirmos acabamos por assumir.
O que mais gostei foram as crianças que corriam todas atrás de mim acreditando que eu era Jesus e tocavam-me no cabelo, na barba e na pele muito admirados, uma situação comovente no momento...
O que me tocou mais profundamente foi ver tantas crianças. Fui a um centro de nutrição, onde vi crianças órfãs e desnutridas. Um centro que espera há 3 anos por ajuda do Governo moçambicano.
Outra situação também chocante é a quantidade de albinos que vi, muitos deles fugidos da Tanzânia, onde são discriminados e mortos para supostamente os seus órgãos serem convertidos em medicamentos para a cura de várias doenças nesse país. Existem assassinos que os perseguem para retirar partes dos seus corpos e que depois utilizam em magia negra, alguns até acreditam que trazem sorte e riqueza. No entanto, esse não é o único perigo que eles correm, são muito vulneráveis à luz solar devido à falta de pigmentação na pele, cabelo e olhos, mas andam como pessoas normais, acabando por apanhar cancro da pele.
Apesar de ver coisas que nunca pensei serem possíveis, adorei a experiência.
Fui muito bem recebido e acolhido, o que não imaginava antes de lá chegar.

Dos 27 dias que lá estive, fiquei com a sensação que fiz muito pouco mas acho que ao conhecer um mundo tão diferente e pessoas tão diferentes... cresci!

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CARLA MONTEIRO

Quando cheguei a Lichinga não consegui falar e quando o fiz disse para a Rita: Amanhã vou embora, não vou aguentar aqui…
O tempo foi passando. Os projectos que tínhamos preparado cá foram postos em prática. E ensinámos, aprendemos, partilhámos!
A segunda semana foi em Mossangulo, sem água, sem luz e com o anoitecer às 17h. Foi, sem dúvida, muito marcante porque, apesar de não termos as condições a que estávamos habituadas, conseguimos dar a volta à situação e demos muita alegria àquelas crianças e a um adulto em especial.
De uma forma geral, todas as crianças que vi tinham um sorriso encantador, expressivo, alegre.
Contentavam-se com carrinhos construídos por eles, com coisas que apanhavam nas lixeiras.
Passámos um dia num orfanato. À noite, no fi m de jantar, estávamos a fazer a avaliação do dia como era hábito) e não consegui falar. As lágrimas caiam sem parar.
Só via os rostos daquelas crianças sem nada, mas tão meigas e carinhosas que a minha vontade era arregaçar as mangas e dar-lhes tudo o que tinham direito na sua condição de crianças!

Venho de lá com uma certeza: se todas as pessoas tivessem a coragem de fazer o pouco e o possível, este mundo não seria tão injusto.
E eu tenho a certeza que o fiz!

Por último, quero agradecer a todas as pessoas que, de uma forma ou de outra, me ajudaram a levar esta missão até ao fim.

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RITA SOUSA

O primeiro dia foi uma mistura de sensações: cansaço, choque e saudade. Mas rapidamente se dissipou e se transformou em alegria e afectos.
A formação às monitoras em Lichinga correu muito
bem. Sentimos bastante interesse e que a nossa experiência não estava a ser em vão. Estava a ajudá-las a crescer enquanto profissionais que trabalham com crianças. Foi uma partilha muito enriquecedora, não só a nível profissional como a nível pessoal.
As condições, muitas vezes, não eram as mais agradáveis. Mas até isso nos fazia rir da situação e, hoje, já tenho saudades.
Passámos uma semana no mato, em Mossangulo.
Foi a experiência mais marcante. Muitos órfãos, o dialecto era diferente, não tínhamos luz nem água…
Mas quando acordava tinha uma vontade enorme de ir trabalhar e ir brincar com aquelas crianças de olhos grandes e expressivos.

Em África o povo marca muito. A mim marcaram-me as crianças. Estou muito saudosa por isso. Vou voltar!

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