terça-feira, 16 de agosto de 2011

3ª Crónica de Lichinga 2011

Otthuneya nthamwene, moshekuweliwa (= Caros amigos, boa tarde)
Aproveitando o tempo em que há electricidade e podermos usar a internet, aqui estamos nós, o já famoso grupo dos 10 lichinguenses, a partilhar com os nossos amigos o que vamos vivendo, vendo e fazendo neste cantinho do céu da província moçambicana do Niassa, plantado não à beira mar…, mas nas margens do grande lago com o mesmo nome.
Não foi notícia de 1ª página nos noticiários cá do sítio, mas bem podia acontecer que um bloco de informação tipo “Portugal em Directo” que passa na televisão portuguesa ao fim da tarde abrisse com a seguinte notícia: “Mitande nunca mais será igual...” E, depois continuaria a jornalista: com a chegada a Mitande de três portuguesas com os nomes estranhos de Joana, Gabi e Milu terminou a calma e o sossego nesta população tão conhecida pela sua pacatez. Elas não param, nem deixam parar… e com a sua alegria contagiante estão a fazer acções de formação às educadoras das escolinhas da cidade e a dinamizar toda a comunidade com o consentimento e ajuda do pároco e da comunidade de Irmãs que as acolhem.

Obedecendo ao projecto traçado em Portugal e que aqui, por vezes, é alterado e adaptado devido a tantos factores que só quem vem a África percebe partiram na passada 2ª feira para Massangula a Patrícia e a Paula. Ficaram por lá toda a semana e na ausência das Irmãs que as acolheram – estas foram encontradas em Lichinga a tratar de assuntos burocráticos - foram as nossas duas voluntárias que tomaram conta da residência: dormiam iluminadas por velas ou pela luz das pilhas que levaram consigo e tomavam as refeições na casa do padre da missão. As refeições têm muito que se lhe diga, pois há alimentos, costumes e sabores a que não estamos habituados. Assim, quando em Massangulo foi servido um determinado peixe que pela aparência não convenceu as nossas duas missionárias a Patrícia logo teve arte e engenho de confeccionar na altura um novo menu: esparguete misturado com alface !!!!). Isso mesmo que estão a pensar: estava uma delícia e o peixe ficou para quem por lá passasse mais tarde…
Quanto à escolinha e missão católica, pelas suas informações, há muitas necessidades. O lar que acolhe 40 adolescentes e jovens está com o tecto em risco de ruir. Precisa-se de quem possa ajudar a custear as obras de restauração já que o Estado não dá qualquer ajuda económica para estas instituições fundadas e alimentadas pela Igreja e pela boa vontade de tantos missionários e missionárias que procuram ir ao encontro desta parcela do povo moçambicano esquecido e ignorado por quem de direito.



D. Élio, bispo da diocese e também dehoniano, instituiu a bonita Igreja de Massangulo, construída pelos missionários da Consolata, como Santuário Mariano da Diocese. É uma Igreja muito bonita rodeada de um complexo de construções onde já funcionou uma carpintaria, uma escola, uma universidade e tantas outras valências.
Na mesma 2ª feira logo de madrugada – aqui o dia começa cedo – partiram para Marrupa o Pe. Zé Manel, o Ricardo e o Vítor conduzidos pela incansável Irmã Olívia. A missão era ir buscar a Telma e a Isabel. Foi um passeio espectacular pelo norte de Moçambique. O desejo era ver algum elefante, hipopótamo ou crocodilo, mas foram todos de férias e só conseguimos ver algumas famílias de macacos que faziam as suas macaquices ou atravessavam a estrada a correr. Não eram nada fotogénicos, pois nem davam tempo para podermos apontar as máquinas fotográficas…
A chegada a Marrupa foi uma surpresa muito agradável. Cidade pequena, mas muito limpa e organizada. A escolinha onde as nossas voluntárias trabalharam é “bué de fixe” e as crianças e as monitoras foram de tal simpatia que nos acolheram cantando as boas vindas. Houve quem ficasse sem palavras perante tanta sensibilidade e delicadeza.
A comunidade das Irmãs da Consolata, na hospitalidade que caracteriza os missionários, partilharam connosco o seu almoço e disseram-nos maravilhas do trabalho realizado pelas nossas Isabel e Telma. Estas estavam completamente enraizadas e até já tinham metido conversa com uns espanhóis que também por ali andavam. A Isabel continua a ser a nossa agente de “relações públicas”. Seguindo o ditado “em Roma sê romano” a Telma pô-lo em prática e pensou: em Moçambique sê moçambicana e assim já andava toda vaidosa de capolana. Outros objectos característicos e muito carinho foram-lhes presenteados numa festa de despedida que as comoveu e que as deixou na hora da partida com a vontade de lá voltar. A comunidade das Irmãs, assim como o pároco agradeceram muito e esperam que lá se volte o mais depressa possível.
A sua intervenção não se desenvolveu apenas na “Escolinha José Allamano”, mas também à comunidade em geral – pais, encarregados de educação e parceiros locais como a Rádio de Marrupa.
Soubemos também que houve um pormenor muito interessante nas noites desta estadia em Marrupa. Por volta das 22.00 horas a Telma e a Isabel eram visitadas por um barulho estranho. “Corajosas!?…” como são não se queriam assustar uma à outra: assim a Isabel “sofria em silêncio…” pensando que a Telma dormia e não a acordava para que esta não ficasse também com medo e vice-versa… Pelas suas cabeças passaram muitas leituras de tal acontecimento: Um rato? Um morcego? O vento? Um estranho? Alguém para as acalmar disse-lhes que talvez fossem “almas do outro mundo”…


À chegada a Lichinga ficaram hospedadas na casa episcopal onde ajudarão na catalogação dos livros para as bibliotecas e depois irão para a “Escolinha do SORRISO”.
O Ricardo e o Vítor continuam mergulhados nos livros que é preciso separar, catalogar e distribuir por kits que depois serão distribuídos pelas bibliotecas das escolinhas, paróquias e ESAM. Suspiraram de alegria quando souberam que iam receber a ajuda da Telma e da Isabel que durante o resto desta semana e antes de começarem um novo projecto na escolinha SORRISO. Verdade se diga que as montanhas de livros que ocupavam a sala de reuniões da casa episcopal foi desaparecendo paulatinamente para grande consolo de D. Élio que por aqui ficou esta semana e teve de improvisar outra sala para receber quem o procurava. Na próxima semana, os dois vão dar formação de informática para Metangula. O Ricardo quer ir trabalhar com os “meninos”, mas a altura chegará lá mais para a frente…
Como podem ler continuamos alegres, bem-dispostos, já sabemos umas palavras de macua, já comemos de tudo um pouco… e constatamos que o tempo está a passar depressa de mais.



Ekumi ya athu othene (= Saúde para todos). Os lichinguenses
Lichinga, 15 de Agosto de 2011

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