segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Cuamba a Nampula… de comboio

Toda a gente diz que andar de comboio de Nampula a Cuamba que é um espectáculo. A mim parece-me que andar de comboio de Cuamba a Nampula é que é um espectáculo.

Para começar, vais comprar o bilhete na véspera, mas as bilheteiras estão abertas só na hora em que chega ou parte o comboio. Depois, tens carruagem de segunda e terceira. Não há carruagem de primeira. Na terceira viaja tudo: pessoas, galinhas, cabritos… tudo tem lugar.

Já a segunda custa 400 meticais. Já é muito dinheiro para cá. São carruagens com compartimentos de 6 lugares. Ficam três pessoas frente a outras três, a não ser que alguém vá lá para cima, onde estão as malas e vá a dormir o tempo todo como aconteceu. Afinal são 12 horas de comboio. Sai às 5.30h da manhã de Cuamba e chega às 17.30h da tarde. Segundo algumas versões, não muito credíveis, há motoristas que aceleram o comboio como o chamado russo e chega mais cedo a Nampula. Segundo outros, há maquinistas que param, vão almoçar com a namorada e só depois retomam a marcha.

Assim, em vez de chegarem às 17.30h chegam às 23h. Apesar de eu não ter visto muitas lupas por aí, há gente que acrescenta um conto ao ponto.

Não é que o comboio partiu a tempo e horas? A primeira grande paragem foi em Mutuali. Aí dezenas de pessoas aproximam-se com cestas de mangas à cabeça e nós da janela, vemos, apreciamos, escolhemos as que não estão verdes ou estragadas.


 
Como eu não percebia nada disto aqui, pedi a uma mulher para me escolher dois sacos grandes de mangas que custavam 20 meticais para eu trazer para a comunidade, onde me encontro com o P. Elias e o P. Ricardo, já que o P. Augusto foi para Maputo acabar a sua tese de filosofia.


Eu pensava que lhe estava a dar uma nota de 20 meticais. Afinal dei-lhe uma de 50 meticais. Então disse para mais à frente comprar bananas para eu trazer. Comprou-me em Malema umas bananas deslavadas e murchas…eu perguntei…afinal estas bananas custam trinta meticais? Não. Sobrou dez meticais. Eu disse para comprar algo para os filhos que iam com ela.

Mas cada vez que o maquinista via alguém com uma gamela de mangas, tomates, cebola ou alho à cabeça, parava o comboio. Fez-me lembrar o autocarro que parava em todo o sítio para carregar e levar passageiros quando eu era pequeno. Nessa altura levava mais de uma hora para fazer 15 kms. Agora estamos a falar de Cuamba a Nampula que são 400 kms.

E assim o comboio ia andando ao sabor do maquinista e do mercado que estava junto à linha. A paisagem é verde, bonita, mas não exageremos…É todo o movimento das pessoas…
Ia uma mulher bastante forte com uma criança que dizia ser sua filha. Para mim deve ser a avó, mas armou-se em esperta a dizer que era a mãe da criança de 5 anos. Estava sempre a dar comida à criança…
E chegou a hora do almoço – há uma carruagem restaurante – todos pediram shima, batata frita e caril. Eu puxei do meu saquinho e comi a sande de ovo que me deram em Cuamba e bebi da água que eu trouxe numa pequena garrafa.

Ficaram todos a olhar para mim como que a dizer: branco sofre…
Quando já estávamos a chegar, esta mulher pede-me o meu telemóvel e começou a mexer. Eu perguntei o que queria ela do meu telemóvel. Respondeu-me que queria ver um número. Lá mexeu no dela. Lá mexeu no meu. E eu parvo a olhar para esta esperta como um rato.

Fiquei desconfiado. Quando cheguei a Nampula, perguntei, porque é que a mulher queria mexer no meu telemóvel. Responderam que no Mcell pode transferir-se dinheiro de um para outro até 100 meticais. Nunca percebi se ela me tirou dinheiro ou não…

Chegados a Nampula, era preciso ter cuidado com as malas e as mangas, porque ladrão é mato e sabe roubar, é profissional. Assustaram-me de tal maneira que quando eu saia do comboio não queria ninguém por perto.

E cheguei a casa com os meus pertences e os dois sacos de mangas…
Adérito Gomes Barbosa

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