quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Odisseia Nampula Lichinga

Para começar, há que dizer que não é possível fazer este percurso directo, sem ser por avião ou carro particular. Nesse caso, sem orçamento para o avião, planeei fazer a viagem, de comboio, Nampula até Cuamba e de chapa Cuamba até Lichinga.

No sábado, dia 10 de Dezembro de 2011 (por sinal, dia dos Direitos Humanos), dirigimo-nos pelas 15 horas para a estação de comboio de Nampula, a fim de comprar os bilhetes de segunda classe para a viagem de domingo.

Na fila, encontrava-se também o P. Augusto, padre diocesano da Cerâmica em Lichinga, mas a trabalhar no seminário diocesano de Nampula. Reconheceu-me, veio oferecer-se para comprar o nosso bilhete, uma vez que estava muito perto da bilheteira. Lá lhe demos o dinheiro para comprar o bilhete para mim, para a missionária Gabriela e para a brasileira Ir Fátima.

Aproximou-se para comprar o bilhete de segunda, mas veio logo ter connosco dizer que só havia de terceira. Isto quer dizer ir no meio de pessoas e animais. Pois, sendo para viajar, arriscámos…

No dia 11 de Dezembro chegámos à estação de comboio de táxi as 4h da manhã.

Na estação para entrar para dentro havia uma fila para homens e outra para mulheres, isto só para passar a barreira e picar o bilhete.

Ao entrar na última carruagem da terceira parecia um filme do Texas.

Os bancos estavam todos ocupados, o corredor igualmente. Como podia eu passar além da porta de entrada? Chega o polícia e diz que não posso ficar à entrada da porta. Eu disse-lhe que o corredor estava atulhado de gente e eu não conseguia andar mais.

Então o polícia disse-me para sair do comboio e corresse para o Botequim (bar) que tem mesas e bancos. Lá sprintei, mas o bar estava repleto de gente, com pessoas em pé à espera de gente para se sentar. Afinal o P. Augusto estava lá sentado numa cadeira. Mal me viu levantou-se para me oferecer a sua cadeira.

Continuei de pé. Eram 5 horas da manhã e o comboio começava a rolar. Tive que aguentar de pé até às 8 e 30 da manhã. A esta hora o dono do bar, um mestiço simpático disse para me sentar num lugar livre. Aproveitei logo. Daí a pouco aparece um rapaz que me diz que o lugar é dele. Ok. Levantei-me e disse para ele apertar um pouco para eu me sentar. Ia mais no ar do que sentado, mas era melhor pouco do que nada.

Assim passamos Rapale, Caramanja, Namina, até chegarmos a Ribaué. Aqui desceu o tal rapaz com a mulher, com cara de japonesa, mas é capaz de ser moçambicana.


Aí tornei-me dono, senhor e rei do meu lugar. Ao meu lado, ia uma mulher muçulmana, Latifa que viajava com o seu filho Fraquito (nome da criança), ao meu lado. Começou logo a dizer que estava muito stressada, porque discutira com o marido. Este veio trazê-la à estação de comboio, mas sem falar com ela. Perguntei como poderia destressar. Disse-me para eu lhe emprestar dinheiro para uma cerveja que me devolveria (esta palavra não existe) em Cuamba. Lá lhe ofereci um copo de cerveja de 30 meticais. Daí a pouco diz que tem dores de cabeça. E só passaria bebendo outra cerveja. Calma, lá. Ajudar sim, ser lorpa não. Por acaso não percebi que sendo ela muçulmana bebia álcool cerveja. Mas tudo bem.

Depois de passarmos por Malema, chegamos a Mutuali. Pedi-lhe para me ir comprar um saco de mangas que custariam dez meticais e passei-lhe o dinheiro para a mão. Ela passa-me o filho pequeno dela para os meus braços e pôs-se a andar para comprar fruta. O P. Augusto que estava lá mais à frente olha para mim e vê-me com o filho da muçulmana nos braços. Que fazer? Disse eu. Olhou para mim, sem falar.

Ai Latifa, Latifa. A viver em Mecuti (Pemba), com o quase marido (já têm dois filhos) em Nampula…
Bem. Daí a pouco aparece a mulher com vários sacos de mangas, mas com uma teoria africana. Encontrei o revisor que me pagou estes sacos de mangas. Eu disse: calma lá. Não me vais fintar. Eu dei-te 10 meticais e um saco é meu. Certo? Lá se deixou derrotar pela sua teoria: Ah! Está bem! Pois está, disse eu. E já a 20 minutos da chegada a Cuamba, agarrei o saco das mangas, a minha mochila e vim para junto da porta de saída. Não fosse outra teoria de qualquer outra tribo convencer-me que as mangas não eram minhas e os meus dez meticais que dei para as mangas desapareceram. Mal imaginava eu que este saco de mangas parava em Cuamba uma noite e continuaria até aqui Lichinga e foram bem saboreadas pelo bispo.

Mas a Latifa tentou mais um drible. Quem te vem buscar à estação? Uma pessoa amiga. E não me pode levar também com estes sacos todos? Eu aí usei um raciocínio típico africano, a que chamam finta: sabes. Não é bem uma amiga que me vem buscar. É uma amiga de uma amiga e portanto não tenho muita confiança. Se fosse a minha amiga que é amiga da que me vem buscar, dava. Assim não dá. Percebeste? Ficou baralhada.

E chegamos à estação às 16 horas. E como a Gabriela trazia o merendeiro e ficou na carruagem de trás. Fiquei sem pequeno almoço e sem almoço… em jejum às 16h. Porra.

Ainda bem que a Rai que é amiga da Marli que estava em Nampula estava mesmo à nossa espera com ar de acolhedora. Fomos até casa destas missionárias brasileiras. Tomei um duche rápido. É que estava cheio de fome. Sentei-me à mesa e foi comer tudo ao mesmo tempo: pequeno-almoço, almoço, jantar às 17 horas. Fui para o quarto dormir, porque às 4,30h da manhã tinha que me levantar.

Dessa maneira fui para o quarto, pedi à Rai para ligar a ventoinha. Afinal não era carregar no botão que a ventoinha andava. Era dar duas voltas em cima com a ajuda das mãos e depois ela pegava sozinha… assim foi…com a ajuda da outra missionária que se chama Flor de Maria.

Às cinco da manhã, arrancámos para o lugar dos chapas, carrinha de nove lugares que trazia pelo menos o dobro. Vá lá. Ofereceram-nos os dois lugares ao lado do motorista. Assim, pudemos colocar à frente o saco das mangas. Antes de começar a viagem, em frente da estação, estava uma estalagem muçulmana. Pedi para ir à casa de banho. Disse-me uma criança: cinco meticais. Fui à casa de banho. Quando saí, dei os cinco meticais, mas disse-me que eram dez. Eu não estava a gostar desta finta, mas para não chatear, lá paguei.

Começamos a viagem. Que estrada! Que lama! Que buracos! Lá fizemos das 5.30h até às 9.30h uma grande parte da viagem até Mandinga (praticamente a fronteira com o Malawi e dez quilómetros de Mitande, onde estiveram as voluntárias Gabriela, Joana Coelho e Milu a fazer voluntariado.

Em Mandimba, a chuva molhava mesmo. O motorista Jorge do minibus disse para sairmos e irmos para debaixo de uma varanda de uma casa que depois nos chamaria. Aproveitamos esse bocadinho de tempo para acabarmos os restos do que serviu para pequeno-almoço, almoço e jantar no dia anterior.
(Estou a escrever-vos em Lichinga. Aqui vem o comboio uma vez por mês e neste momento estou a ouvir o comboio a passar!!!).

Daí a pouco retomamos a nossa viagem, já com alguns malawianos que tinham vindo do Malawi, mesmo ali ao lado como disse.

Vinha um outro minibus à nossa frente e tinha tido problemas no depósito da gasolina. Então o nosso Jorge disse que o nosso carro era bom e não avariaria como o outro. Porque é que ele foi dizer isso? Depois de andarmos um bocado e apanharmos a estrada alcatroada, o carro começou a andar devagar. Daí a pouco, ele disse que tínhamos que parar porque havia um pequeno problema: o tubo da água do radiador estava furado. Era preciso arranjar. Disse ele que era rápido. Esperamos uma hora, mas o engenheiro do momento conseguiu colocar aquilo a andar.

E lá fomos andando até chegarmos a Massangulo. Aí a polícia manda parar e implicou com os do Malawi, mas como estavam documentados seguimos viagem. Pelas 15 horas, entrámos em Lichinga com chuva e frio.

Na última parte da viagem, o motorista começou a conversar e a dizer que Lichinga era um curral de bois antigamente e depois espalhou-se esse nome. A seguir começou a falar do lago Niassa. Dizia que o crocodilo podia apanhar negro, mas quando via um branco como eu, fugia. Terei mesmo a cor da lixívia? Neste caso, tem vantagem.

Mas em vez de nos deixar no mercado central, onde terminou a viagem, teve a gentileza de nos trazer até aqui à casa do bispo católico.

E quem estava para nos receber? Nem mais nem menos que o bispo que estava a sair com o vigário geral para uma visita pastoral.

À tarde falhou a luz. Celebramos a missa à luz das velas e da lanterna a manivela que estava no meu bolso…eu, o Ir. José Meone, a Gabriela, um voluntário italiano Mário.
Adérito Gomes Barbosa

Sem comentários:

Publicar um comentário